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Setembro 3, 2006

João Gilberto Noll

Entrevista com João Gilberto Noll, em Porto Alegre. Som do programa Escrita em Dia, na Antena Um, Lisboa.

Cícero

Entrevista de Antônio Cícero no site da Record, a propósito de A Cidade e Os Livros (edição portuguesa na Quási). Cícero esteve recentemente em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa.

João Tordo no Brasil












A Rocco acaba de publicar no Brasil o livro de estreia de João Tordo, O Livro dos Homens sem Luz (edição portuguesa da Temas & Debates).

Almanaques










Dois livros para curiosos reterem imagens dos anos que passam: o Almanaque dos Anos 70, de Ana Maria Bahiana («O primeiro campeonato de surf no Brasil, a inauguração do metrô, os loucos festivais de rock no interior, enfim, das drogas à censura, de Leila Diniz grávida de biquíni ao surgimento da onda black...») e o delicioso Almanaque do Fusca, de Fábio Kataoka e Portuga Tavares («as histórias da Kombi, Gurgel, Miura, Bianco, TL, SP2, Daicon, Puma, Baja, Karman Ghia, Brasília, Variant, Jaguar e, claro, toda a história paralela do Fusca, seus modelos diversos, sua influência no cinema, na economia, na arte, na moda, na cultura pop, enfim, tudo o que foi criado a partir deste modelo que já passou por mais de 90.000 alterações e mantém o mesmo design original...»). Ambos publicados pela Ediouro.

Jabor reunido













A Objetiva lançou este PornoPolítica, os melhores textos de Arnaldo Jabor.
Um extracto:
Já passei por caminhos de amor e sexo, mas não sei a resposta; tudo fica difuso quando tento me lembrar dos grandes momentos de êxtase. O prazer se esvai na memória. Já amei mulheres, só depois que as perdi. Já odiei ser amado, já amei por narcisismo. Quantos “amam” para humilhar o outro com seu “imenso” amor? Quantos “amam” por egoísmo? Nos anos 70, amor e sexo passaram por uma revolução meio confusa. As paixões eram súbitas, e as separações, sem aviso.
Sumira do amor o desejo de eternidade, havia um sexo experimental no ar que almejava o “desregramento de todos os sentidos”, em busca de um nível mais alto de consciência. Eram caretas a possessividade, a fidelidade. Os casamentos e namoros firmes perderam o rumo, pois nos faltavam as regras da tradição. No entanto, as emoções fundamentais estavam ali, disfarçadas, mas presentes: posse, ciúme, medo. O que faz o amor tão inquietante é o medo da rejeição, da perda do objeto ou, mais simplesmente, da dor-de-corno. Eu já sofri monumentais dores-de-corno, e elas me ensinaram muito. Acho mesmo que o homem só vira homem quando recebe chifres didáticos. Só aí o macho onipotente conhece o desespero da condição humana. A dor-de-corno é física, é uma experiência de morte.

Agosto 14, 2006

Mais vendidos no Brasil.

Conferir aqui a lista dos livros mais vendidos em São Paulo, na Livraria Cultura.

Links

O Gávea regressou e está a proceder à actualização de links. Deixe sugestões.

Flip. Parati.

Mário de Carvalho, Alberto da Costa e Silva, Benjamin Zephaniah, Ali Smith, José Miguel Wisnik, Lillian Ross, Philip Gourevitch, Toni Morrison, André Sant'Anna, Reinaldo Moraes, Christopher Hitchens, Fernando Gabeira, Edmund White e Nicole Krauss participaram da FLIP 2006, que aconteceu de 9 a 13 de agosto, em Parati, Rio de Janeiro. Acompanhe a programação e o dia-a-dia do evento pelo site do Festival de Parati.

Gonçalo M. Tavares na Companhia








A Companhia das Letras acaba de publicar Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares.

Maio 26, 2006

Romance de Patrícia Melo continua as aventuras de Maiquel.












Em Mundo Perdido, Patrícia Melo continua a biografia de Maiquel, o personagem de O Matador: só que agora já perdido entre a selvajaria urbana, os cartéis da droga e os acampamentos de sem-terra. Também na Companhia das Letras.

Moacyr e os vendilhões












Novo livro de Moacyr Scliar, no catálogo da Companhia das Letras: Os Vendilhões do Templo.

Dezembro 3, 2005

Garcia-Roza sem Espinoza, mas com Berenice













Acabou de sair. Defeito óbvio: não tem o delegado Espinoza como personagem.

«Às oito e meia da noite teve a certeza de que não haveria encontro. A galeria estava seca e razoavelmente limpa e, coisa rara, não havia ninguém lá dentro. De onde estava, podia ver uma extensão de praia corresponente a cerca de duas quadras da avenida Atlântica; se pusesse a cabeça para fora, poderia ver toda a extensão da praia. Perto das nove da noite optou por uma retirada segura por baixo da terra em direcção às ruas internas de Copacabana.»
Luiz Alfredo Garcia-Roza, Berenice Procura. (Companhia das Letras)

Sobre Luiz Alfredo Garcia-Roza no Gávea. Entrevista com Garcia-Roza na Ler. Garcia-Roza de A a Z.

O regresso de Verissimo















«Eu acho que o sexo tem que ser entre pessoas que se amam, ou se gostam, ou se respeitam, ou então não se conhecem mas não têm nada mais para fazer entre as seis e as oito. Senão fica uma coisa mecânica, entende?»

«Eu acho que na cama vale tudo, menos legumes. Já perdi a namorada porque disse que o meu limite era o pepino. E nos dávamos bem, ela também é do coral da igreja.»

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«Um dia Moacyr ("com ipsilone", como se dizia) chegou em casa e encontrou sua mulher na cama com um fuzileiro naval. Comentou que há muito tempo não via fuzileiros navais, com seus uniformes característicos na rua, e até se indignava se a corporação ainda existia.
-- Existimos -- respondeu o fuzileiro Tobias --, mas só para serviços especiais.
E Dalinda, ao seu lado, sorriu e baixou os olhos, imaginando que Tobias se referia a ela.»

Luis Fernando Verissimo, Orgias. (Objetiva)

Nova biografia de Ruy Castro: agora, Carmen Miranda




















A biografia de Carmen Miranda, por Ruy Castro (o autor de Estrela Solitária, a biografia de Garrincha, e de O Anjo Pornográfico, a de Nelson Rodrigues), aí está. A mim soa-me a grande trabalho (apesar da desconfiança do Ivan); além do mais, estive com o Ruy no dia em que ele regressou de Marco de Canavezes, a terra de Carmen Miranda (Várzea de Ovelha) e vi aquele brilho no olhar.

Ruy Castro, Carmen. (Companhia das Letras)


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Entrevista de Ruy Castro ao site da Companhia das Letras:

Carmen, o novo livro de Ruy Castro, é a maior biografia de um artista já publicada no Brasil. Ano a ano, o autor acompanha a vida da brasileira mais famosa do século XX - do nascimento da menina Maria do Carmo, numa aldeia em Portugal (e a vinda ao Rio de Janeiro, em 1909, com dez meses de idade), à consagração brasileira e internacional de Carmen Miranda e sua morte em Beverly Hills, aos 46 anos, vítima da carreira meteórica e dos muitos soníferos e estimulantes que massacraram seu organismo em pouco tempo.
Mas Carmen não é apenas uma biografia. Enquanto entrelaça a intimidade e a vida pública da maior estrela do Brasil, Ruy Castro nos leva a um passeio pelo Rio dos anos 20 e 30, e por Nova York e Hollywood dos anos 40 e 50 - cenários de que é especialista. E ainda resgata a história da música popular brasileira, da praia, do Carnaval, da juventude do passado, da Rádio Mayrink Veiga, do Cassino da Urca, da Broadway, dos gângsters que dominavam os nightclubs americanos e dos bastidores dos estúdios de cinema - numa época em que os beijos eram em Technicolor e em que, para estrelas como Carmen, as noites não tinham fim.


Quando e como surgiu a idéia de biografar Carmen Miranda?
Foi há dez anos, quando terminei de escrever Estrela solitária. De livro para livro, sempre gostei de variar de personagem. Depois de escrever sobre um teatrólogo (Nelson Rodrigues) e um jogador de futebol (Garrincha), achei que gostaria de biografar uma mulher. Pensei logo em Leila Diniz e em Carmen. O foco sobre Leila espalhou-se por Ipanema e se transformou no livro Ela é carioca, de 1999. Mas Carmen merecia um livro só para ela. Hoje está claro para mim que, além de fabulosa cantora, ela foi uma das moças mais modernas e revolucionárias de seu tempo. Carmen era independente, falava palavrão e todo mundo sabia que tinha vida sexual com o namorado, mas ninguém lhe faltava ao respeito. E isso em pleno ano de, digamos, 1930!

Você já afirmou que não escreveria mais biografias. O que o fez mudar de idéia?
A própria Carmen. Era irresistível como artista, como mulher e como personagem. Gosto dela desde que nasci e, talvez, até antes. Meu pai, solteiro no Rio dos anos 30, morava na Lapa, era boêmio, tocava violão e freqüentava as estações de rádio. Era fã de Carmen, de Mario Reis, de Chico Alves, e tinha centenas de discos de 78 rpm. Cresci ouvindo esse repertório. Lembro-me muito bem do dia da morte de Carmen, em agosto de 1955 - tinha sete anos, mas vi como a notícia abalou minha família. E eu próprio sempre a achei a maior cantora brasileira de todos os tempos.

Quanto tempo você levou para investigar e escrever Carmen?
Comecei a trabalhar no livro em janeiro de 2001, recolhendo material em arquivos, sebos e leilões - enquanto isso, estava escrevendo Carnaval no fogo. Em 2003, assim que entreguei esse livro à editora, mergulhei para valer em Carmen. Entre investigar e escrever, foram quase três anos de dedicação integral, e que eu não trocaria por nada. Falei com cerca de 170 fontes diretas, num total de mais de mil entrevistas, incluindo uma grande quantidade de contemporâneos de Carmen - homens e mulheres na faixa dos noventa anos, perfeitamente lúcidos e ativos. (Nunca deixei de me comover com o amor que ainda sentiam por Carmen.) Em certos casos, foi uma corrida contra o tempo - e perdi alguns por uma questão de dias. Graças à ajuda dos amigos, ouvi todos os discos citados no livro e vi todos os filmes - os de Carmen, inúmeras vezes. Fui a Várzea de Ovelha, onde Carmen nasceu, perto da cidade do Porto, e conversei com seus parentes, inclusive uma prima-irmã.

Há descobertas de que você se orgulha particularmente?
Ah, muitas. A primeira foi a reconstituição da infância de Carmen na colônia portuguesa no Rio, no começo do século XX. Outra foi a de que a Lapa, onde ela morou dos seis aos dezesseis anos, de 1915 a 1925, foi fundamental para a sua formação. Carmen estava no lugar certo quando muitas coisas importantes estavam começando: a Lapa, a Cinelândia, a praia, o rádio, o disco e o cinema. Tudo isso é inédito. Outra passagem de que me orgulho é a reconstituição do show no Cassino da Urca em 1940 com a presença de tanta gente do governo na platéia, a maioria simpatizante de Hitler - foi por isso que hostilizaram Carmen e disseram que ela voltara “americanizada”... E, finalmente, a relativização da famosa Política da Boa Vizinhança - que só teve alguma importância porque contou com Carmen Miranda, e não o contrário.

Você diria que Carmen é sua melhor biografia, até pela experiência acumulada?
Sim. Mesmo porque não é só uma biografia. É também um levantamento de uma época maravilhosa e uma história de como as drogas ditas “legais” acabaram com a vida de várias estrelas do cinema, como Carmen, Marilyn Monroe, Judy Garland. Não sei se devo confessar, mas eu próprio chorei ao escrever o final do livro.

Novembro 22, 2005

>> Os melhores livros de 2005 / Votação geral <<









O programa Livro Aberto vai lançar uma votação, entre os seus telespectadores, para elaborar uma lista dos melhores livros do ano. Quatro categorias, atendendo ao ritmo editorial português:


>>>> Ficção Portuguesa

>>>> Ficção Estrangeira

>>>> Poesia

>>>> Ensaio



Na blogosfera, os votos são enviados para o endereço de correio electrónico deste blog sob a forma de listas constituídas por um máximo de dez títulos por categoria. Periodicamente, o blog publicará os resultados parciais e, no dia 5 de Janeiro, será conhecida a lista dos vinte livros mais votados por categoria, os finalistas, abrindo-se um período de oito dias para votações finais com base nessas listas.
Os resultados definitivos serão publicados no dia 12 de Janeiro no blog e na imprensa, além de resultarem numa emissão especial do programa Livro Aberto.

A partir de agora, a votação está aberta. Vamos às estantes recordar os livros que mais nos marcaram em 2005.

Novembro 19, 2005

Homens, mulheres









Leia o artigo de Carla Rodrigues sobre os novos livros de Martha Medeiros e Nelson de Oliveira, respectivamente Divã (Objetiva) e A Maldição do Macho (Record).

Português de ambos os lados do rio

A expressão «Rio Atlântico» foi criada por Onésimo Teotónio de Almeida, num dos seus livros -- e é um debate que regressa de vez em quando ao Gávea. Desta vez, Alex Castro, do blog Liberal, Libertário, Libertino, escreve sobre o assunto a propósito das suas leituras de Lobo Antunes:
«Não adianta se enganar achando que brasileiros e portugueses falam a mesma língua.
Meu pai teve empresa em Portugal e eu passei algumas férias lá, andando com os filhos dos seus sócios por Estoril e Cascais, curtindo a vida de adolescente lisboeta da década de 80. Minhas primeiras leituras foram os pocket-books de terror e mistério da Livros do Brasil e Europa-América, aventuras giras nas quais chuís se envolviam com sensuais raparigas e acabavam se metendo em muitos sarilhos. Depois, viciado pelos grandes descobrimentos, li As Décadas de João Barros e várias outras narrativas de navegadores, escritas em português da época.
Meu conhecimento de lusitano, imagino, deve ser acima da média de um brasileiro comum.
Apesar disso, tenho mais dificuldade de entender a RTP do que a BBC ou a Telemundo. Tentei decifrar o famoso blog português Meu Pipi e simplesmente não consegui.
Nas últimas duas semanas, li quatro livros de António Lobo Antunes - e estou começando o quinto. No total, foram mais de 1.500 páginas de lusitano, em um estilo propositadamente complexo e algo hermético.
Confiem em mim, palavra de brasileiro que entende lusitano melhor que a média: portugueses e brasileiros já não falam a mesma língua faz tempo. Os editores de ambos os países que ignoram esse fato o fazem em detrimento dos leitores (que não entendem lhufas) e autores (cujas obras são mal-transmitidas).»
Ler mais aqui.

Novembro 18, 2005

Vaidade de blogger













Depois da edição de Um Céu Demasiado Azul, saiu agora As Duas Águas do Mar. Ambos na Record.

Só uma nota: eu nunca me importei que o editor brasileiro alterasse a ortografia dos meus livros. Não sou ortodoxo. Sou um traidor. Mas desde que outros autores apareceram nos jornais portugueses a dizer coisas como «eu nunca permiti que alterassem a ortografia dos meus livros no Brasil», sinto-me na obrigação de dizer o seguinte: não só eu não me importaria que o editor brasileiro propusesse algumas alterações à ortografia como, ainda por cima, o editor brasileiro exigiu que os livros saíssem sempre com ortografia do português de Portugal. Portanto, quando lerem aquelas declarações pomposas de autores a dizer que nem uma vírgula permitem que os brasileiros alterem nos seus livros, já sabem: é mentira. É só fita. Os editores não querem mesmo alterar.

Novembro 14, 2005

O Mundo não é Chato, por Caetano Veloso













Recolha de artigos, contracapas de discos, prefácios e polémicas, aí está O Mundo não É Chato, de Caetano Veloso (Companhia das Letras). E opiniões sobre Oswald de Andrade, Bob Dylan, Visconti, Pelé, Jimi Hendrix, Gilberto Gil, Glauber, Tom Jobim, Cazuza, Nelson Rodrigues, Fernando Pessoa, Elis Regina, Lorca e muitos mais.

Risco incalculável

Adauto de Novaes organizou um livro para correr um risco incalculável, mas a experiência pode valer a pena: Poetas que Pensaram o Mundo (Companhia das Letras). Novaes adverte para o perigo, mas mesmo assim antologia textos de Shakespeare, Eliot, Rimbaud, Valéry ou Pessoa.

Amor, amor








É um dos mais recentes lançamentos da Contexto: História do Amor no Brasil, de Mary Del Priori. Moacyr Scliar escreveu uma boa crítica no Estadão. Mas, enfim...

Mary Del Priori é professora da PUC do Rio de Janeiro e da USP e já escreveu uma História das Mulheres no Brasil.

Saramago na frente

A lista dos livros mais vendidos de O Estado de São Paulo deste domingo já inclui o novo romance de José Saramago (As Intermitências da Morte, edição Companhia das Letras) em primeiro lugar. Na semana anterior estava em terceiro.
Já agora, em segundo lugar está O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini e, em terceiro, Memórias das Minhas Putas Tristes, de García Márquez.

Questões coloniais, ainda

Sasha Cavalcante nos comentários do Gávea acerca deste post:
«Como brasileiro, não posso deixar de demonstrar a minha indignação perante determinada corrente de pensamento bastante difundida entre a classe média do meu país, a de uma pretensa língua “brasileira”, que infelizmente tem encontrado eco nas mentes mais xenófobas que habitam este universo virtual. No Orkut, nomeadamente, confesso que tenho abertamente criticado esta tese absurda que, felizmente, grassa em mentes menos esclarecidas.
Tenho o maior orgulho de ter sido colonizado por Portugal, enquanto cidadão, e a plena consciência de que falamos a mesma língua, certeza esta solidificada após 13 anos a trabalhar como jornalista em rádios e jornais do distrito de Santarém.
Não fossem os portugueses e o Brasil não seria o Brasil que conhecemos, o Brasil da bossa-nova, de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, e tantos outros artistas da nossa MPB. Não fossem os portugueses, não teríamos a oportunidade de ouvir a Amália Rodrigues cantar um fado de Vinícius nem o Caetano Veloso interpretar um tema da grande cantora portuguesa. Não teríamos Jorge Amado, Érico Verísssimo e tantos outros. Felizmente, a grande maioria do povo brasileiro e a totalidade da nossa inteligentsia tupiniquim não alinha com esta teoria ufanista, nada e criada nos círculos mais conservadores e reacionários. Eça de Queirós foi sempre o escritor estrangeiro mais lido no Brasil e, mais recentemente, José Saramago conquistou os brasileiros, assim como o grupo Madredeus vê o seu público aumentar. Miguel Sousa Tavares foi citado diversas vezes pela revista Veja, que elogiou o seu romance Equador, e ainda foi convidado do programa de Jô Soares, assim como o jornalista Carlos Fino, que recentemente passou por lá.
É fato que artistas e intelectuais dos dois lados do Atlântico tem mantido uma sólida relação de amizade que dura décadas. Vinícius visitava Amália nas suas idas a Portugal e percorria as tertúlias de Coimbra ciceroneado por Nicolau Breyner e José Niza. Quando Caetano Veloso viveu exilado em Londres no início dos anos 70, firmou amizade com Zeca Afonso, que gravava por lá os seus discos e tinha a presença assídua do baiano no estúdio. É, portanto, ridículo qualquer argumento que venha inventar uma língua brasileira ou até mesmo, o que me é difícil acreditar, que os livros de autores portugueses sejam boicotados no Brasil. Basta uma simples pesquisa pelo Google para perceber que a maioria dos sites na internet sobre Fernando Pessoa é mantido por brasileiros.
Eu sou um sebastianista, acredito na fatalidade que colocou vários povos a falar a mesma língua e que o nosso caminho é mais ou menos por aí, por uma afirmação da nossa língua enquanto identidade cultural, enriquecida pelas diversas variantes do nosso idioma. A chegada dos escritores portugueses será sempre bem vinda, assim como qualquer outra manifestação cultural.»
Eu sou um sebastianista, acredito na fatalidade que colocou vários povos a falar a mesma língua e que o nosso caminho é mais ou menos por aí, por uma afirmação da nossa língua enquanto identidade cultural, enriquecida pelas diversas variantes do nosso idioma. A chegada dos escritores portugueses será sempre bem vinda, assim como qualquer outra manifestação cultural.»
Sasha Cavalcante

Novembro 4, 2005

Debate

Interessante o debate sobre o artigo de Sanches Neto que já motivou um artigo do Diário de Notícias, de Lisboa (2 páginas), além de uma crónica de Eduardo Prado Coelho no Público. Ver também o post de Eduardo Pitta no Da Literatura.

Por gentileza do Gonçalo Soares, está aqui o texto integral do artigo de Sanches Neto.

Para os leitores brasileiros interessados em acompanhar de perto alguns debates e opiniões portugueses, sugiro o Da Literatura.

Novembro 2, 2005

Ensaios



















Ensaios de António Cícero: sobre poesia, sobre poetas, sobre teoria da literatura, sobre João Cabral de Melo Neto. Finalidades sem Fim, na Companhia das Letras.

Bruna.

Acabou o blog da Bruna Surfistinha. Tanto escreveu que acabou por publicar um livro (O Doce Veneno do Escorpião. O Diário de uma Garota de Programa, edição Original). Adeus voyeurs.

Outubro 22, 2005

Neo-colonialismo e literatura.

A Carta Capital, uma boa revista brasileira que começou por ser apenas de economia, publicou um texto de Miguel Sanches Neto com queixinhas sobre os escritores portugueses, intrusos no Brasil, e com uma inabitual lengalenga sobre neo-colonialismo (que o governo português envia hordas de escritores para o Brasil) e nacional-proteccionismo (que o português do Brasil é melhor do que português europeu -- o que tem uma raiz verdadeira, mas dito assim...). Como este blog está à vontade em matéria brasileira e luso-brasileira, acho que o texto era medíocre, invejoso e senil. O embaixador português no Brasil, Francisco Seixas da Costa, achou que o assunto merecia um reparo. Está aqui a sua resposta, na íntegra. Boa diplomacia também é isto: responder quando alguém pergunta alguma coisa.

«No Brasil há menos de um ano, aprendi rápido que a abertura ao mundo constitui uma das matrizes deste país, fruto da sua permanente convivência descomplexada com a diferença. A brasilidade fez-se e firmou-se sobre todas as marcas e referências que aqui chegaram, usando-as e transformando-as num magma cultural original, com uma identidade fortíssima, que hoje não precisa de defesas artificiais para se afirmar.

Por tudo isso, foi com alguma surpresa que li o artigo de Miguel Sanches Neto, “Brasil recolonizado”, onde é feita uma aberta apologia do proteccionismo linguístico, do fechamento da fronteira cultural do Brasil à nova literatura portuguesa, tida por poluente veículo de uma estética convencional, apoiada numa norma escrita já decrépita, fechada à sacralização da oralidade. A crer no autor, urge afundar no horizonte, pela crítica profilática, as novas naus de letras que agora trazem por aí Inês Pedrosa, Sousa Tavares, Lídia Jorge, Lobo Antunes, Hélder Macedo, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Francisco José Viegas, Rui Zink e tantos e tantos outros, com o usurpador nobélico Saramago na proa. Por que não se deixa que sejam os leitores brasileiros a usar a sua maturidade para separar o trigo do joio, o que gostam ou não, sem necessitarem de filtros tutelares preventivos?

Faço a justiça de não colocar Sanches Neto nos cultores do despeito atávico pelo que vem da “terrinha”, coisa velha em algumas mentalidades residuais, onde o anti-portuguesismo – essa doença infantil da brasilidade – se mantém recorrente, espreitando pelas esquinas do preconceito, sobrevivendo em algumas vozes e penas, no desespero em tentar fazer do Brasil e de Portugal dois países separados por uma língua comum. Mas é bem triste ver adubada e ajudada essa mesma deriva por figuras da cultura, dando verniz ideológico e intelectual ao preconceito.

Deixo apenas uma nota mais.

Na minha juventude em Portugal, a ditadura não se atrevia a privar-nos de Amado, Guimarães Rosa ou Veríssimo, a afastar-nos da Pasárgada da esperança acenada por Bandeira, que nos ajudava a sonhar longe dos “mortos de sobrecasaca” que nos rondavam os dias. Se alguém hoje ousasse por lá dizer que Nélida Piñon, Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro ou o outro Veríssimo afectavam a estética literária caseira teria, como resposta, uma gargalhada do tamanho do Atlântico, ouvida no Além pela velhinha de Taubaté.

Francisco Seixas da Costa, Embaixador de Portugal no Brasil.»

Setembro 22, 2005

Enfim

O Jabuti para Nelida Piñon. Quase o mesmo que dizer que Machado esteve na ABL.

Setembro 7, 2005

São Francisco de Paula.















Os dois homens estão sentados
frente a frente. Chimarrão, mate,
fumo de cigarro, cavalos rente
a uma cerca de madeira. Um fogo
a meio da madrugada. Um deles
dedilha o violão, o outro recita,
as mãos nos joelhos.

Os dois gaúchos olham a erva rasa,
o risco de luz entre as araucárias.
Há um silvo absurdo no interior
do bosque. Uma guabiroba abateu
depois das chuvas, entre raízes
de caúnas e rastos de animais.

Quando vem o minuano? Preparado
para o vento, um deles ergue-se,
chamado pela escuridão do céu,
responde por todos os nomes da serra,
iluminado pelas brasas do chão.
O outro olha mais além, procurando
os sinais da tempestade.

Viagem a Pelotas

Corpos celestes, ventanias, poeira,
muros em ruínas, sabor de areia.
Lagoas que correm ao longo da estrada
como um mapa cheio de pontos desconhecidos

e luminosos. Uma geografia assim,
sobrevoando a cidade colonial e em ruínas,
os riscos de fumo nas montanhas, a poesia
mais afastada dos perigos, junto do riso,

tudo para que o deserto não se prolongue
e os animais da noite encontrem
os caminhos. Lagos. Insectos esvoaçando,
rios, arroios, aviões sobre o pampa

e sobre as águas da chuva, cidades
adormecendo antes da noite, uma mesa
onde aguardamos o vento, vindo do pátio,
da escuridão mais perto da luz.

Tratado de Geografia do Sul














(Cambará do Sul)




Brasil de musgos e sombras, veredas onde
a música não entrou ainda, nem o batuque,
nem outra cor que dê alma aos seus mortos.
Árvores por onde cresce a humidade, o silêncio,
onde passa o voo dos quero-quero vigiando
as fronteiras. Colinas sem inclinação, cavalos
que passam pela chuva transformada em neve
no Brasil das serras. Lã, ponchos, fogos, queimadas,
arvoredos, poemas vindos do nada, madeiras,
trilhas, escadarias, neblinas nos lagos, tisanas
e pimentas, estradas de terra húmida, sotaque
de geada, céu negro em São José dos Ausentes.

Fronteiras, lagoas, gaúchos envoltos na luz
pálida do meio-dia, impressão de glória
ou de deserdados, vida breve de cachoeiras
no vento do sul, caminhos que não se perdem
nunca, desfiladeiros sobre o que há-de ser o pampa,
sobre o que há-de ser a vida inteira, hino da terra,
harpas em campos abertos, animais, observatórios,
planetas vistos entre arvoredos, vento polar arrastado
pelos pássaros, manhãs, tardes, vastas noites, vastas
noites no coração da tempestade, muros de lama,
cidades vazias onde o passado guardou
a arqueologia dos seus nomes. E peregrinos,
perdições, dias escuros, araucárias nos caminhos,
pecados, preces e traições do entardecer,
delicadeza vaga sem uma palavra que a explique,
luar profundo, animais do sul mais ao sul,
língua rara, língua própria, coisas que gelam
à superfície. E cavaleiros na linha do horizonte,
recortados junto de casas abandonadas, luz
descendo sobre os pântanos, poeira, vinhedos.

E uma geografia desfeita, subindo pelas serras,
desconhecida, sem a amargura dos abandonados
e sem a doçura dos que se sentem amados.

São José dos Ausentes.












Sol debruçado sobre as neblinas,
primeiros vaga-lumes. Barreira contra
a ventania, uma nuvem sobre outra,
silêncio sobre silêncio, vegetação,
passos no meio da chuva.

Agosto 18, 2005

A Região Submersa. Agora a negro.














Foi em Portugal que Tabajara Ruas (então no exílio) publicou A Região Submersa pela primeira vez. Agora, a Record incluiu o livro na sua série Negra. Fantástica aventura de Cid Espigão, o detective de Porto Alegre. O livro também está publicado em Portugal pela Ambar,

Tabajara Ruas (1942), gaúcho de Uruguaiana, é escritor, tradutor e autor de guiões para televisão e cinema. Entre 1971 e 1981, Tabajara viveu exilado e morou em diversos países: Chile, Argentina, Dinamarca e Portugal. Actualmente trabalha como publicitário entre Porto Alegre e Florianópolis. Entre os seus livros estão Netto Perde a Sua Alma (Record no Brasil e Ambar em Portugal), O Fascínio (Record no Brasil e Ambar em Portugal), Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez (Record no Brasil e Ambar em Portugal), O Amor de Pedro por João (Record), As Armas e os Varões Assinalados (LPM).

Os artistas da bola. Domingos da Guia.























O fantástico Domingos da Guia biografado por Aidan Hamilton, no livro Divino Mestre (edição da Gryphus). Hamilton, que é jornalista da BBC, já tinha publicado o livro Um Jogo Inteiramente Diferente.

[DOMINGOS DA GUIA Começou jogando no Bangú em 1929. Depois se transferiu para o Nacional de Montevidéu onde conquistou o titulo de campeão uruguaio de 1933. Voltou ao Brasil para jogar no Vasco e foi campeão carioca em 1934. Saiu novamente para vestir a camisa do Boca Junior e outra vez foi campeão argentino de 1935. A próxima camisa foi a do Flamengo. No clube da Gávea foi campeão carioca nos anos de 1939. 1942 e 1943. Já veterano defendeu o Corinthians Paulista e encerrou sua carreira onde começou, no Bangú. Jogava de cabeça erguida, tinha uma perfeita noção de colocação e se destacava pela antecipação nas jogadas. Por seu futebol quase perfeito, tinha o apelido de Divino.

Vestiu a camisa da seleção brasileira em trinta partidas. Disputou vários campeonatos sul-americanos mas nunca foi campeão. Participou da Copa do Mundo de 1938 e ficou em terceiro lugar. Seguindo os passos e a tradição do pai, Ademir da Guia foi um dos mais clássicos e elegantes jogadores do nosso futebol. Domingos da Guia nasceu no dia 19 de novembro de 1912 no Rio de Janeiro, e morreu no dia 18 de maio de 2000.]
Ver mais aqui.

Milton Hatoum. Regresso a Manaus.














Novo livro de Milton Hatoum, Cinzas do Norte (edição Companhia das Letras). O regresso a Manaus entre 1950 e 1960.

[
Na Manaus dos anos 1950 e 1960, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda a vida. De um lado, Olavo, de apelido Lavo, o narrador, menino órfão, criado por dois tios mal-e-mal remediados, que cresce à sombra da família Mattoso; de outro, Raimundo Mattoso, ou Mundo, filho de Alícia, mãe jovem e mercurial, e do aristocrático Trajano.
No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo. A fim de realizar suas inclinações artísticas, ou quem sabe para investigar suas angústias mais profundas, o jovem engalfinha-se numa luta contra o pai, a província, a moral dominante e, para culminar, os militares que tomam o poder em 1964 e dão início à vertiginosa destruição de Manaus. Nessa luta que se transforma em fuga rebelde, o rapaz amplia o universo romanesco, que alcança a Berlim e a Londres irrequietas da década de 1970, de onde manda sinais de vida para o amigo Lavo, agora advogado, mas ainda preso à cidade natal.]

Milton Hatoum é autor de Dois Irmãos e de Relatos de um Certo Oriente, ambos publicados pela Companhia das Letras, no Brasil, e pela Livros Cotovia em Portugal. Mais informações sobre Milton aqui.

Prémio Portugal Telecom

O Diário de Notícias de hoje publica uma lista de livros candidatos ao Prémio Portugal Telecom. Trata-se, na verdade, de um conjunto de livros que podem vir a figurar na shortlist final, habitualmente com dez títulos.

Agosto 8, 2005

Lista para o Jabuti

1º - Vozes no Deserto
Nelida Pinon - Editora Record

2º - Lorde
João Gilberto Noll - W11 Editores

3º - O Opositor
Luis Fernando Veríssimo - Objetiva Ltda

4º - Maré Nostrum
Salim Miguel - Editora Record

5º - O Vestido
Carlos Herculano Lopes - Geração de Comunicação Integrada Comercial Ltda

6º - Guerra em Surdina
Boris Schnaiderman - Cosac e Naify Edições Ltda

7º - O País dos Ponteiros Desencontrados
Flávio Moreira da Costa - Agir Editora Ltda

8º - Santo Reis da Luz Divina
Marco Aurélio Cremasco - Editora Record

9º - Francisco Félix de Souza
Alberto da Costa Silva - Nova Fronteira

10º - O Fotógrafo
Cristóvão Tezza - Editora Rocco

Agosto 5, 2005

Egocentrismo, um pouco (o blogger, ele mesmo)













Crítica, no JB, a um livro do blogger, ele mesmo.

Agosto 1, 2005

Verissimo a pedido.

Leitores do Gávea querem um cheirinho do livro de Verissimo citado aí mais em baixo. O começo:

«Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão. Como todos os homens, soi oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes de superfície, que pouco significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. São aqueles livros mal impressos em papel de jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça. Escrevo um livro por mês, com vários pseudônimos americanos, embora meu herói -- não sei se você notou -- sempre se chame Conrad. Conrad James. Herman Conrad. Um ex-marinheiro de poucas palavras. Um peixe pequeno, mas mais de uma cidade foi salva da catástrofe pela sua ação decisiva entre as páginas 90 e 95. Tenho uma fórmula: a grande trepada por volta da página 40, o encontro final com o vilão, e o desenlace a partir da página 90. Sobrevivo. Nunca mais vi o mar. Pensando bem, não saí mais de casa desde o meu acidente. Perdi o pé. Não quero falar disso. Tem uma mulher, Maria, claro, que vem cozinhar para mim e sempre chega com notícias da decomposição da sua família. "Minha mãe tá com a urina preta", justo quando eu estou tomando café. Tem uma moça que vem duas vezes por semana fazer a faxina mas sempre acaba na minha cama. Há dois anos que ela vem, Lília, Lília e ainda não espanou um livro. É assim que eu vivo. Exile and cunnilingus. Mas não era isso que eu queria contar.»

O Jardim do Diabo, recordo, foi o primeiro romance de L.F. Verissimo, publicado em 1988, e esta edição da Objetiva apresenta o texto revisto pelo próprio.

Rubem revisto. E acrescentado.












Crítica & recensão do Ubiratan Brasil (O Estado de S. Paulo) ao livro de Rubem Fonseca, aqui.

Mais um extracto do livro (publicado pelo Leões de Tolstoi):

«Quando cheguei na Vara Criminal, dona Neide estava sentada num banco na antesala do juiz.
Dona Neide, a senhora se lembra do que combinamos, não lembra? O seu Rosalvo cruzou a rua subitamente...
O nome dele era Raimundo, disse ela, me interrompendo.
O seu Raimundo, continuei, atravessou a rua fora da faixa e surpreendeu a senhora, que usou os freios mas mesmo assim não conseguiu evitar o atropelamento. É isso que a senhora vai dizer ao juiz, está bem? Pouco depois, fomos chamados à presença do juiz. (...) Muito bem, dona Neide, disse o juiz, quero ouvir um relato sucinto dos fatos. Como foi que ocorreu o atropelamento? A senhora já prestou um depoimento na polícia e eu gostaria que a senhora falasse novamente sobre essa ocorrência. (...) A coisa aconteceu assim, seu juiz. Eu estava distraída falando no meu celular, com umavizinha minha que fezoperação da vesícula, uma operação complicada porque ela teve uma crise, cólicas fortíssimas, e foi internada.
Dona Neide, atenha-se aos fatos, alertou o juiz, a senhora estava dirigindo distraída, falando no seu telefone celular e...? O seu Raimundo, coitadinho, apareceu na minha frente, e eu o atropelei, disse dona Neide (...) Abri a boca para falar, mas o juiz fez um gesto com a mão aberta, como dizendo que se eu falasse alguma coisa ele ia me expulsar da sala.
Dona Neide, disse o juiz, na polícia as suas declarações foram diferentes.
Eu fiz o que o doutor Mandrake mandou naquela ocasião, disse dona Neide, mas hoje ele disse para eu falar a verdade, foi um alívio para mim.»

Julho 30, 2005

Joel Silveira, e «O Inverno da Guerra»













Joel Silveira – 86 anos e mais de 60 de profissão – é considerado o repórter que mudou o jornalismo brasileiro. Foi correspondente de guerra, colunista, editor. Tem vários livros publicados como: Viagem com o presidente eleito, A camisa do Senador, A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, A Feijoada que Derrubou o Governo e o Diário do Último Dinossauro. O Gávea já o incluiu entre os seus autores.
A Objetiva acaba de lançar O Inverno da Guerra, reportagens de Joel Silveira durante a II Guerra, quando partiu para a Europa ao serviço da cadeia de jornais de Assis Chateaubriand, os Diários Associados, acompanhando o contingente brasileiro «até à rendição alemã».

Reedição de Verissimo














O primeiro romance de Verissimo, um thriller bem-humorado, O Jardim do Diabo (Editora Objetiva) acaba de ser publicado e inteiramente revisto pelo autor. Conta a história do assassinato de uma mulher que envolve Estevão, autor de romances policiais. A primeira frase é fabulosa. Mais ou menos isto: «Tratem-me por Ismael e eu não respondo; meu nome é Estevão.» A Objetiva também lançou uma versão das tiras de Aventuras da Família Brasil.

Novo Rubem Fonseca. Morram de inveja!



















O novo romance de Rubem Fonseca leva o título A Bíblia e a Bengala (Companhia das Letras) e vai entrar em distribuição em breve. Assunto do novo livro: o roubo de um dos raros exemplares da Bíblia de Mogúncia, de Gutenberg, e o desaparecimento de uma assassina bengala Swaine. Para amantes de Rubem, no entanto, há um pormenor essencial a ter em conta: o personagem principal é o investigador e advogado criminalista Mandrake, o mesmo de A Grande Arte, a obra-prima de Rubem, prémio Camões de 2003.

Extractos do livro:

«Você me disse que não se envolvia com mulheres casadas e você e ela estavam fodendo, o marido deve ter descoberto e você matou o infeliz, você é um assassino, um mentiroso, um canalha que se finge de bonzinho, pensa que eu não sei por que fodia comigo? Para fazer uma boa ação, para se redimir dos seus pecados, eu, o doutor Mandrake, sou bonzinho, estou fodendo a aleijadinha, eu vou para o céu. Você vai é para o inferno, seu filho-da-puta. Helena arrancou os sapatos e andou pela sala, mancando. Está vendo a aleijadinha que tem uma perna mais curta que a outra, que você, para conseguir foder, tomava Viagra escondido ou outra merda dessas, olha para mim, seu pulha, olha para a aleijadinha.»


«Meu pai passava o dia e a noite acordado, quando ia para a cama ficava lendo e eu lhe pedia que parasse de ler, apaga a luz de
cabeceira e vamos dormir, eu dizia, e ele respondia que não queria dormir e quando não estava lendo ficava de olhos abertos olhando para o teto ou para a janela. Fecha os olhos, eu pedia. Não fecho, não posso fechar os olhos, se fechar os olhos eu morro. A luz da cabeceira permanecia acesa, eu acordava no meio da noite, do meu sono agitado, e lá estava ele, de olhos abertos, olhando para o teto. Um dia notei que ele estava de olhos fechados e pensei, aliviado, afinal ele dormiu, e apaguei a luz da cabeceira. Quando acordei, pela manhã, ele estava morto.»


A Grande Arte, de Rubem Fonseca, foi publicado pela Companhia das Letras no Brasil; há uma edição portuguesa publicada em 1987 pelas Edições 70.

Porto Alegre, São Paulo, Recife

Um dos habituais comentadores do Gávea escreveu a propósito dos posts sobre tertúlias em Poerto Alegre e São Paulo, chamando a atenção para o Recife:
«Como disse, Porto Alegre é de facto a metrópole mais européia do Brasil. Convivem descendentes de alemães, de italianos e, sobretudo, de açorianos. Há, também, um imenso bairro da diáspora ashkenazi. Recife, quase 4.000 km na direção nordeste, é também um encontro de gentes de diferentes origens: portuguesa, africana e autóctone. Em Porto Alegre há uma saudável competição entre as culturas que integram a cidade. Já Recife, no que toca à civilização, é quase exclusivamente portuguesa. O rosto de Porto Alegre é europeu e o de Recife mestiço, moreno. Em ambas as metrópoles, ainda que por diferentes razões, os portugueses encontrarão muitas afinidades. Já São Paulo seria a única capital de vocação autenticamente "americana", a representar mais um aspecto dos diferentes Brasis...»
Ficamos à espera de indicações sobre tertúlias pernambucanas.

Curso Breve de Literatura Brasileira




















Para mostrar apenas a capa do primeiro volume da colecção, Curso Breve de Literatura Brasileira, da Cotovia, o Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado. Abel é, de facto, o grande divulgador da literatura brasileira em Portugal, um dos autores do melhor blog português do momento, o Casmurro, onde colaboram também Osvaldo Silvestre, Manuel Portela, Pedro Serra ou Gustavo Rubim.

Abel Barros Baptista é autor de, entre outros, O Professor e o Cemitério. Rusga pelo «José Matias» de Eça de Queiroz Entendido como Percurso de Assassinatos Regulares, 1986; Auto Bibliografias. Solicitação do Livro na Ficção e na Ficção de Machado de Assis, 1998; A Infelicidade pela Bibliografia, 2001. Director-adjunto da revista Colóquio/Letras, Abel escreve em jornais e revistas de Portugal e do Brasil e é co-autor, com Luísa Costa Gomes, do romance O Defunto Elegante (Lisboa, 1996) e, com Gustavo Rubim, de Importa-se de me emprestar o Barroco?. O seu mais recente livro de ensaios é Coligação de Avulsos. Ensaios de Crítica Literária (na Cotovia).

Abel










No suplemento Mil Folhas do Público deste fim-de-semana, não perder a entrevista com Abel Barros Baptista, o criador da colecção de literatura brasileira lançada pela editora Cotovia. Infelizmente, como se sabe, só disponível online para assinantes do jornal.

Foreign sound













O Festival de Cinema de Gramado foi pouco mais do que chato. Mas havia frio suficiente, chuva e neve como promessa. Novidade excelente: vinho tinto muito bom, o da Cantina, um cabernet sauvignon de que foram arrebatadas as melhores garrafas para um grupo que ocupou a esplanada aí acima. A Rua Coberta, mesmo em frente, foi palco para tardes de conversa. E parece que havia filmes, sim.

Julho 29, 2005

Barão de Itararé.

«O fígado faz muito mal à bebida.»

Frase deliciosa, não?

Ver mais aqui sobre o gaúcho Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé.

Delírio do blogger, na verdade

















Publicado na última edição da LER, em Portugal, o conto «O Manuscrito de Buenos Aires». Link aqui. Um falso Quijote.

Cruz Alta, Verissimo

Para quem vem do mar, Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, inaugura o chamado território das missões. Erico Verissimo nasceu aí em 1905 e atravessou quase todo o nosso século XX. Estive duas vezes em Cruz Alta quando descia em busca da paisagem das missões – campos cruzados de rios, lagoas, neblinas, na direcção da Argentina e, mais ao norte, do Paraguai. É naquela parte do Brasil que se descobre com mais clareza que Camilo, bem como o nosso século XIX, tinham razão. Não se tratava de Brasil mas de Brasis.
Texto da crónica completa aqui.

A não perder, em viagem, 2

E em São Paulo, recomendam-se as sessões do Bar Zé Batidão, no Jardim Guarujá (Rua Bartolomeu dos Santos, 797; telef. 11-5891-7403), às quartas-feiras, organizadas pela Cooperifa (Cooperativa da Periferia). Os seus debates e leituras já estão reunidos em livro publicado pelo Itaú Cultural.

A não perder, em viagem, 1

Para quem estiver de viagem pelo Brasil nesta temporada, não perder as terças-feiras mais do que animadas no Bar Ocidente, em Porto Alegre, no bairro do Bom Fim, cenário de muitos livros de Moacyr Scliar e também dos chamados «movimentos culturais» da cidade mais europeia do Brasil, a capital gaúcha, além de registar a maior concentração de bares da América do Sul. São os Saraus Elétricos, onde podem ser visitas Luis Fernando Verissimo, Moacyr Scliar, L.A. Assis Brasil ou Luis Augusto Fischer. Chegam a estar 100 pessoas – a entrada custa R$5, e há bebidas durante as sessões (Rua João Telles, Bom Fim, telef. 51-3312-1347).

Ulysses brasileiro












Até agora, o leitor de língua portuguesa tinha duas versões disponíveis do Ulysses, de Joyce: a de João Palma Ferreira (edição Livros do Brasil) e a de António Houaiss (edição, no Brasil, da Civilização Brasileira; edição portuguesa na Difel). Bernardina da Silveira Pinheiro, professora carioca e já tradutora de Joyce (Retrato do Artista Quando Jovem) e de Lawrence Sterne, preparou uma nova versão, agora publicada pela Objetiva.

Só pra não dizer que não falei.


















No novo livro de Jô Soares, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (Companhia das Letras), há um personagem curioso: um alquimista chamado Paul Lapin, com cerca de duzentos anos de idade. Isto basta para mencionar, de novo, a expressão «pimenta local», não?

O pícaro moderno?

Scaramouche Araújo é o personagem central do livro de Mano Melo (Viagens e Amores de Scaramouche Araújo, edição Five Star), um jovem que, em pleno governo Médici, nos anos de chumbo da ditadura brasileira, decide partir pelo mundo fora, para visitar geografias tão distantes como a Holanda ou Goa, o Paquistão ou a França – um aventureiro brasileiro temperado de Jack Kerouac e de pimenta local.

Negritude revisitada.

O conceito de negritude foi central na antropologia dos anos setenta e oitenta, e Peter Fry, hoje com 63 anos, estudou as relações sociais e raciais no Brasil do século XX em livros como Feijoada e Soul Food, de meados dos anos setenta. Um dos pontos essenciais era a crítica à ideia de democracia racial e à obra de Gilberto Freyre (Casa Grande e Senzala). Passados estes anos, Fry regressa para chocar as universidades, os marxistas, os «estudos de género» e os antropólogos e políticos que defendem a excelência das quotas e da discriminação positiva. O livro chama-se A Persistência da Raça (edição Civilização Brasileira) e analisa a colonização portuguesa em Angola e Moçambique, por exemplo, além de reabilitar Gilberto Freyre e de lançar dúvidas sobre a submissão do Brasil a lógicas americanas de «combate» ao racismo. A ler.

Política sem correcção






Reinaldo de Azevedo é uma das vozes politicamente incorrectas do Brasil de hoje. Jornalista, passou pela Folha de São Paulo, pela Bravo, pela República (de boa-memória) e pode agora ser lido na Primeira Leitura. A editora Barracuda lança Contra o Consenso, reunião de alguns dos seus textos mais marcantes sobre cultura, sociedade, arte e – sempre – política.

Brasil radical

Reunião de fantasmas: o rapper MV Bill, o entusiasta do hip-hop Celso Athayde e o sociólogo Luiz Eduardo Soares lançam um livro a seis mãos, Cabeça de Porco (edição Objetiva) sobre a relação entre drogas, hip-hop, rap e a cultura urbana em cidades brasileiras da linha da frente (São Paulo, Rio, Porto Alegre, Belo Horizonte…).

Caio redescoberto

Redescoberta no Brasil e ainda ignorada e muito pouco lido em Portugal, a ficção do gaúcho Caio Fernando Abreu (1946-1998), em reedição permanente: a editora Agir publicará em 2006 grande parte da obra do autor de Onde Andará Dulce Veiga? (Companhia das Letras), que passa agora ao cinema, adaptado por Guilherme de Almeida Prado. Entretanto, acaba de ser publicado o volume de contos Morangos Mofados, depois de Caio 3D – O Essencial da Década de 1970, onde se reúnem contos, poemas, cartas, e a extrema beleza de uma obra que procura sempre uma felicidade rara.

Abril 27, 2005

O blogger, ele mesmo


Sim, acabou de sair Longe de Manaus. O blogger, ele mesmo.

Dulce Maria Cardoso na Companhia das Letras


O livro Campo de Sangue (edição portuguesa na Asa) acaba de sair na Companhia das Letras. Dulce estará na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Ler mais sobre o livro.

Para os leitores portugueses, Dulce Maria Cardoso será entrevistada na emissão do Livro Aberto (RTP-N e :2) de 21 de Maio próximo.

Moacyr Scliar e Cinco Dedos de Prosa.


O livro é Na Noite do Ventre, o Diamante, de Moacyr Scliar, que encerra a colecção Cinco Dias de Prosa, da Objetiva.
Leia mais sobre o livro. E sobre Moacyr.

Fevereiro 17, 2005

Desvario



Lamentamos informar que o Gávea se encontra aqui, folheando livros. Nem todos recentes, mas isso não conta.

Fevereiro 5, 2005

Adélia Prado



Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de Dezembro de 1935. A sua poesia está reunida em Poesia Reunida, publicada pela Siciliano.

Bienal 2005


A XII Bienal do Livro, no Rio, será de 12 a 22 de Maio. Aceitam-se marcações de encontros para cafezinho e chope. O Gávea vai estar lá.

Já agora, a VI Bienal Internacional do Livro da Bahia, será em Salvador, de 2 a 11 de Setembro. Ainda falta muito. Daqui até lá, veremos o apetite para o acarajé.

Mussa

Alberto Mussa, com O Enigma de Qal (Record) distinguido com um dos prémios da Casa das Américas. Para mais informação sobre Mussa e este livro, ver o Gávea, aqui.

Espinosa

Logo depois das férias (estamos a falar do Brasil), a Companhia das Letras receberá o manuscrito do novo livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza, um romance sem o inspetor (ou inspector?) Espinosa como personagem central. Para aqueles que não passaram por lá, aqui se recorda o texto «Espinosa de A a Z», no Textos da Gávea, bem como uma entrevista de Garcia-Roza publicada na revista Ler, em Portugal, e transmitida na rádio Antena Um, de Lisboa. A entrevista levava o título «Um Marlowe brasileiro».

Carregamento

O Gávea, daqui a dez dias, estará no hemisfério sul. Voltará carregado de livros. Não se aceitam encomendas.

Novidades brasileiras na Cotovia

André Jorge, o editor português da Cotovia (Sérgio Sant’anna, Bernardo Carvalho, etc.) anuncia que publicará o novo Sérgio Sant’anna – e está a ponderar publicar, finalmente, João Gilberto Noll. Finalmente. Pedro Mexia, por outro lado, prepara um volume com as crónicas de Nelson Rodrigues também para a Cotovia. A Cotovia, já agora, prepara uma colecção inteiramente dedicada à literatura brasileira, coordenada por Abel Barros Baptista.

Futebol, cara



Para os que gostam de futebol e estão de férias de bola, aqui está As Capas da Copa, Orlando Duarte e Fábio Amaro, que reúne, além do mais, as principais capas dos jornais do mundo inteiro no dia primeiro de Julho de 2002 -- justamente o Brasil obteve o penta no dia anterior. A edição, ah! surpresa!, é da Cosac Naify, uma editora que merece destaque pelos seus grafismos.

Moçambique no Brasil



E também para os nossos amigos que podem emigrar para Tabatinga e que gostariam de espreitar um pouco de Moçambique, a Companhia das Letras já publicou dois livros de Mia Couto: Um Rii chamado Tempo já está nas estantes, e O Último Voo do Flamingo chega às livrarias brasileiras na próxima semana.

Mesmo que fosse obsessão



Mesmo que fosse obsessão, isto das obras de Verissimo (na Companhia das Letras). Para os nossos amigos que podem emigrar para Tabatinga e ler a última parte de O Arquipélgo, da trilogia O Tempo e o Vento. Acaba de sair Do Diário de Sílvia, o retrato que Verissimo faz de uma professora de 25 anos e da sua forma de romper o casamento com um estancieiro (fazendeiro, para os amigos portugueses) do pampa.

Emigrar antes do Carnaval



Para os nossos amigos que não podem emigrar para Tabatinga, fica aqui O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro, de Felipe Ferreira, edição Ediouro.

Agualusa

Por estes dias, José Eduardo Agualusa chega ao Brasil. Peregrinações de cidade em cidade.

A viagem de Iaqub, 2

Como seria Manaus nesse ano de 1894, quando Iaqub desceu do barco, no Rio Negro, e viu as obras das ruas, a lama dos pátios? Devia ser um desgosto grande e uma dor sem nome, porque a Serra de Contamana, a fronteira com o Peru, tinha o perfil negro da maldição lançada sobre todos os homens solitários que se atrevem a enfrentá-la ao fim do dia. Em Manaus, o Rio Negro assustara-o: os únicos rios que vira, em sonhos certamente, tinham sido os rios da Mesopotâmia, e nenhum era tão grandioso, tão frio, tão profundo e tão escuro como aquele Amazonas que o barco persegue de Belém para Santarém e, finalmente, de Santarém para Óbidos, de Óbidos para Juruti e Itacoatiara, de Itacoatiara até às águas sujas de Manaus, onde Iaqub chegara em Dezembro de 1894, numa manhã de domingo em que os sinos tocavam às primeiras horas da manhã e se aproximava o Natal dos cristãos.

Memórias do Rio Grande

Silvia Chueire/Eugenia Fortes, sobre Veríssimo (vem nos comentários): «Li O Tempo e o Vento quando tinha em torno de dez ou onze anos. Ana Terra devo ter lido umas três vezes, impressionada sempre com a força, a coragem, a beleza da história, da Ana. E principalmente porque aos meus olhos infantis tudo decorria como num filme. Eu via claramente paisagens, ambientes e personagens.E abosorvia o sentimento gaúcho. Ainda hoje me lembro de como "sonhei" o Rio Grande Do Sul, aqueles lugares todos. As vidas, as tramas.»

A nova Lusitânia, ou o Recife

De um leitor do Recife (está nos comentários): «A distância geográfica entre o Rio Grande do Sul e o Recife é bem maior do que a que separa Pernambuco do Senegal. Não surpreende que um visitante recifense se sinta meio estrangeiro em ambos os longínquos sítios. O que nos une é a marca portuguesa, indelével tanto na Nova Lusitânia (assim se chamava Pernambuco até o séc. XVIII) e as terras gaúchas, povoadas que foram por açorianos. O que nos torna diferentes é que em Pernambuco os portugueses (frequentemente da região de Viana do Castelo, mas também houve açorianos) se misturaram com as índias, e posteriormente agregaram o componente africano. Já no Rio Grande do Sul costeiro vê-se muito mais nitidamente Portugal no rosto das pessoas (no interior, alemães, italianos, e alguns mulatos na região de fronteira) e a imigração, apesar de ter seus 200 anos, é muito mais recente. Pernambuco já tentou se libertar do Brasil por duas vezes, no séc. XIX. O Rio Grande do Sul também fez das suas. Mas o casamento até que tem sido duradouro...»

Fevereiro 1, 2005

Entrevista com Luiz Antônio Assis Brasil



A Margem Imóvel do Rio, de Luiz Antônio Assis Brasil será finalmente publicado em Portugal, pela Ambar (edição brasileira na LPM, de Porto Alegre). O autor estará em Portugal para as Correntes d'Escrita, a realizar na Póvoa de Varzim, já dentro de duas semanas. Leia aqui o extracto de uma entrevista transmitida em Portugal pela rádio Antena Um.

Entrevista com Milton Hatoum


Leia aqui um extracto da entrevista de Milton Hatoum, transmitida pela rádio Antena Um (Lisboa) -- publicada na revista LER.

Mais Verissimo



Depois de começada a trilogia o Tempo e o Vento, uma boa ideia para a reedição da obra completa do escritor, a Companhia das Letras lança Ana Terra, de Erico Verissimo -- parte da saga, claro, juntamente com os três volumes de O Arquipélago, O Retrato e O Continente , já reeditados. Já tinha chegado às livrarias a nova edição de Incidente em Antares. Um extracto de Ana Terra:
«Ana Terra descia a coxilha no alto da qual ficava o rancho da estância, e dirigia-se para a sanga, equilibrando sobre a cabeça uma cesta cheia de roupa suja, e pensando no que a mãe sempre lhe dizia: "Quem carrega peso na cabeça fica papudo". Ela não queria ficar papuda. Tinha vinte e cinco anos e ainda esperava casar. Não que sentisse muita falta de homem, mas acontecia que casando poderia ao menos ter alguma esperança de sair daquele cafundó, ir morar no Rio Pardo, em Viamão ou até mesmo voltar para a Capitania de São Paulo, onde nascera. Ali na estância a vida era triste e dura. Moravam num rancho de paredes de taquaruçu e barro, coberto de palha e com chão de terra batida. Em certas noites Ana ficava acordada debaixo das cobertas, escutando o vento, eterno viajante que passava pela estância gemendo ou assobiando, mas nunca apeava do seu cavalo; o mais que podia fazer era gritar um "Ó de casa!" e continuar seu caminho campo em fora. Passavam-se meses sem que nenhum cristão cruzasse aquelas paragens. Às vezes era até bom mesmo que eles vivessem isolados, porque quando aparecia alguém era para trazer incômodo ou perigo. Nunca se sabia. Uma vez tinham dado pouso a um desconhecido: vieram a saber depois que se tratava dum desertor do Presídio do Rio Grande, perseguido pela Coroa como autor de sete mortes. O pai de Ana costumava dizer que, quando via um leão baio ou uma jaguatirica, não se impressionava: pegava o mosquete, calmo, e ia enfrentar o animal; mas, quando via aparecer homem, estremecia. É que ali na estância eles estavam ressabiados.»

Janeiro 31, 2005

A viagem de Iaqub, 1

Para quem nunca esteve na Amazônia, é difícil imaginar como se chega quase à nascente do Juruá-Mirim, tanto mais que o rio nunca foi muito navegável. Não era rio de pesca, não era rio de gente, sobretudo na época das chuvas, de Outubro a Maio, e alguém só podia chegar a ele saltando de rio em rio, de igarapé em igarapé, de colina em colina, sobrevivendo aos ataques dos índios, às alucinações, aos animais desconhecidos e às febres.

Nem sempre é fácil, nem sempre é fácil

Nem sempre. Às vezes os livros escapam-se por onde não deviam. Pousam onde não deviam. O Gávea recupera lentamente de tempestades, caminha devagar. É a vida. Mas isso passa.

Dezembro 19, 2004

E ainda mais links

Mais links portugueses: sites institucionais e blogs de autores portugueses. Há também um agrupamento revistas & sites de literatura em França, Inglaterra e EUA.

Mais links, muitos links

Acabam de ser acrescentados cerca de 100 novos links no Gávea: escritores portugueses, editores portugueses e livrarias portuguesas online. Sirvam-se. Seguem actualizações. Ou atualizações.

Dezembro 18, 2004

Rio Atlântico

O António Viriato, do Alma Lusíada, deixou este texto na caixa de comentários do Gávea. Acho que pode ser um ponto de partida para uma discussão, como a que ocorreu aqui acerca do Acordo Ortográfico:
«A iniciativa do blogue Gávea, votado a promover o conhecimento recíproco da comunidade luso-brasileira, é, em si mesma, muito louvável, no deserto actual dominante na matéria.Mas, para lograr verdadeiro êxito, deve deixar-se de cedências ao politicamente correcto e não ter medo de tocar em certos temas-tabu, como a pouca simpatia e a diminuta curiosidade dos brasileiros, em geral, pela realidade portuguesa, seja ela de que tipo for: económica, política, histórica, artística ou literária, apesar dos esforços meritórios e persistentes de uns poucos, de ambas as margens do Atlântico. Não basta falar a mesma língua, para que nos entendamos ; é preciso alguma predisposição mental para compreender o nosso interlocutor e aqui parece-me que há um longo caminho a percorrer, sobretudo da parte dos nossos irmãos brasileiros. [...]»

Samba em São Paulo

Lembro-me de um dia, na apresentação de Ruy Castro no Porto (fim de tarde, bar do Teatro Tivoli, gin crepuscular, gente que entra e sai), por causa da sua biografia de Garrincha. Falei dos livros do Ruy. Ele brincou: «Você não mencionou meu livro sobre a bossa-nova porque você só gosta de samba.» Ah, claro que não era verdade; piada mesmo. Mas este fim-de-semana, com Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho juntos em São Paulo, a cantar Lupicínio Rodrigues, por exemplo, eu não resisto a não gostar senão de samba durante duas horas, pelo menos.

Posta Restante

Escreve o Luís R. Gomes por e-mail: «Porque raio fica tão fascinado com a literatura brasileira? E com os blogs brasileiros? Sigo o Aviz e vejo que cada vez há mais links de blogs do Brasil.» Resposta: não está à vista?

Dezembro 16, 2004

Adriana Lisboa



Adriana Lisboa é um dos nomes a reter da nova literatura brasileira. A Rocco acaba de lançar Caligrafias.
"Minha vida é o milagre banal da eternidade feita de presente, passado e futuro simultâneos – substâncias do mesmo sonho. Meus dias são todos de uma vez só. E eu me respondo com interrogações. Existo, até que deixe de existir. A maior transcendência é ter uma pele permeável e ser o que está do lado de dentro e ser o que está do lado de fora também."
Adriana Lisboa nasceu em 1970, no Rio de Janeiro, e cresceu entre a cidade e a fazenda de sua família no interior do estado. Viveu em França, estudou música e trabalhou como cantora, flautista e professora. Publicou os romances Sinfonia em Branco e Os Fios da Memória, ambos na Rocco.

João Antônio!


Para quem não conhece Malagueta, Perus e Bacanaço: estão aí os contos urbanos, paulistas, paulistanos e publicados por João Antônio. É um elogio da malandragem. Os originais de Malagueta, Perus e Bacanaço foram destruídos no incêndio da sua casa, em 1960. O livro só seria publicado depois, em 1963, totalmente reescrito. Agora sai em edição Cosac Naify, bonita como sempre são as desta casa, com um extratexto com fotos e uma biografia deste livro.

Outras obras de João Antônio: Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de lima Barreto, Lambões de Caçarola, Ô, Copacabana, Abraçado ao meu Rancor. João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), nasceu de uma família de imigrantes portugueses de poucos recursos, em São Paulo. Foi jornalista. Escritor de coisas da rua. Amante das cidades.

Rubem


Correr para as livrarias: está aí o voluminho (600 páginas) dos Contos de Rubem Fonseca -- são 64 deles, escolhidos pelo próprio Rubem, o melhor contista da língua portuguesa. Edição Companhia das Letras. Para os leitores portugueses, de Portugal, o melhor processo é uma ida ao Centro do Livro Brasileiro, ao Calhariz (Lisboa), ou um pedido aos distribuidores mais rápidos da net brasileira (fala a experiência), a Saraiva ou o Submarino.



Aí está A Tapas e Pontapés, de Diogo Mainardi -- o melhor das crónicas da Veja. E aqui está o link para uma das entrevistas de Mainardi no tour de lançamento do livro. A edição é da Record.

Pornografia histórica


E, para começar, nada melhor do que chamar a atenção para uma das novidades natalícias (quase tremo) da Companhia das Letras: Páginas de Sensação. Literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924). Aqui vai, também, um extracto da introdução, de Alessandra El Far:
Nas últimas duas décadas do século XIX, inúmeros livros foram publicados com a finalidade de atingir uma parcela ainda pouco explorada pelo mercado editorial: "o povo". Com o tempo, as belas encadernações vindas da Europa e os textos assinados por intelectuais de rara erudição, tão apreciados pelas elites ilustradas brasileiras, foram cedendo espaço, nas prateleiras das livrarias, às brochuras baratas, que carregavam consigo tramas mirabolantes, narrativas audaciosas, de tirar o fôlego. "Nós, editores", dizia o literato Adolfo Caminha, reproduzindo a frase que todo escritor de talento escutava ao tentar publicar sua obra, "preferimos ao estilo, à arte um bom enredo, uma história de sangue cheia de mistérios, comovente, arrebatadora! É disso que o povo gosta, e nós, a respeito de gosto literário, só conhecemos o povo."


Cá vamos

Ah, mil perdões. O Gávea voltou depois de quase um mês de absentismo, degradação moral e más leituras. Sobretudo portuguesas, vale a pena dizer. Cá vamos.

Dezembro 6, 2004

INTERRUPÇÃO

Por motivos absolutamente marginais, o Gávea interrompeu as suas actividades durante algumas semanas. Retomará a maratona habitual na próxima quarta-feira. Sem falta.

Para os amigos e leitores que têm visitado o blog em vão, agradecimentos sinceros.

Novembro 19, 2004

Sérgio Sant'anna voa na Antena Um

Para os leitores portugueses, em Portugal: o programa Escrita em Dia, da Antena Um, encerra neste domingo a série de 10 emissões dedicadas a entrevistas com escritores brasileiros; o derradeiro convidado é Sérgio Sant'Anna, o autor de O Voo da Madrugada (edição brasileira na Companhia das Letras, edição portuguesa na Cotovia).
A emissão começa à meia-noite de domingo para segunda-feira, na Antena Um, sendo depois repetida na RDP-África (às 23:59 de segunda-feira) e na RDP-Internacional (21:05 de quarta-feira) -- são horas de Lisboa.

Novembro 17, 2004

Cinema puro


A Companhia das Letras lança uma recolha das melhores críticas ou crónicas de cinema de Moniz Vianna, geralmente publicadas no Correio da Manhã. A organização é de Ruy Castro.

Contos de Rubem Fonseca

Está praticamente nas livrarias brasileiras uma antologia de contos de Rubem Fonseca: cerca de 800 páginas seleccionadas pelo próprio escritor de entre os seus contos. São 64 no total.

Encontros de Interrogação

De São Paulo, o bom Ilídio Soares chama a atenção para a realização dos «Encontros de Interrogação», o nome do «evento literário» que será realizado no Itaú Cultural, em São Paulo, nos dias 22 e 23 de novembro. Cerca de cem poetas, prosadores, críticos e jornalistas estarão presentes, participando dos debates em mesas temáticas. Escreve o Ilídio: «Sabe quem virá para esse encontro? Veja só: Claudia Roquette-Pinto,Wilson Bueno, Horácio Costa, Carlos Ávila, Ignácio de Loyola Brandão, Ricardo Aleixo, Sebastião Nunes, Glauco Mattoso, Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção... para citar poucos nomes... enfim, só a fina fauna e flora da nossa literatura atual ... o Itaú Cultural distribuirá uma revista dedicada especialmente ao encontro, e produzirá um livro e um DVD com depoimentos de todos os autores participantes.»

Novembro 11, 2004

Poesia de Ana Miranda

O novo livro de Ana Miranda (a autora de Boca do Inferno, Companhia das Letras; edição portuguesa na Dom Quixote), que não publicava poesia há 21 anos, é Prece a uma Aldeia Perdida e sai por estes dias.

Adenda: Já está publicado, edição da Record.

Karim Blair, aliás.

«Uma guitarra, uma flor ao soldado desconhecido de My Lai, as escuras e irreversíveis saudades, um garoto que, como eu, amava Emerson, Lake & Palmer. Os rasantes dos helicópteros surgindo detrás das montanhas, as taturanas, as tatuagens, os canhoneiros, o tênis saltando poças de água e desdém, a linha fina da chuva morna e pegajosa, cigarrilhas adocicadas, lojas de ervas, um disco italiano de 78 rpm: Catari. As gardênias, os vidros, os vidrilhos, a lentidão das trilhas, os nossos almoços, as nossas bússolas, um saquinho de madrepérolas, outro de fotos de Xangai & adjacências, as convalescenças, os cortes das pernas que iam se fechando aos poucos, as pomadas, os ungüentos, as cartas indecifráveis, as moscas estagnadas, as legendas, as semelhanças, os rumos, a hidrografia nostálgica de uma tarde avermelhada.»
Karim Blair
(aliás, Mécia), O Caderno Lilás .

Será bom, haver discriminação positiva?

Livros devem ficar mais baratos com isenção fiscal. «Os livros brasileiros entraram na lista dos produtos que vão ficar livres de impostos e contribuições. O governo federal e o Congresso Nacional estão preparando uma série de medidas com o objetivo de reduzir preços e aumentar as vendas de livros no país.» [Via Folha de São Paulo]

Novembro 10, 2004

Prémio Portugal Telecom/Brasil


São 100 mil reais (cerca de 35 mil euros) que vão parar às mãos de Paulo Henriques de Britto, o autor de Macau, um livro de poemas, que recebeu o prémio Portugal Telecom Brasil.
Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Professor universitário e tradutor, é autor de Liturgia da Matéria, Mínima Lírica e Trovar Claro. O livro Macau é publicado pela Companhia das Letras. Entre as suas traduções estão livros de Don Delillo, Salman Rushdie, Philip Roth ou Paul Auster e Elisabeth Bishop.
Na lista de candidatos ficaram, em segundo, O Vôo da Madrugada, de Sérgio Sant´Anna (Companhia das Letras; publicado em Portugal pela Cotovia). Na terceira posição, ficou A Margem Imóvel do Rio, de Luiz Antonio de Assis Brasil (edição LP&M Editores). Ver notícia aqui.

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BIODIVERSIDADE

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
Paulo Henriques de Britto, Macau. Companhia das Letras.

Novembro 9, 2004

Garcia-Roza na LER

Entrevista de A.L. Garcia-Roza, por Francisco José Viegas; texto integral. (Publicada originalmente na revista Ler, de Portugal -- agradecimentos à sua directora, Mafalda Lopes da Costa.) Há também uma espécie de dicionário dos livros de Garcia-Roza, ou seja, do delegado Espinosa.

Ruy Duarte de Carvalho no Rio

Para os amigos brasileiros do Gávea -- especialmente do Rio: está aí o espectáculo de teatro do actor e encenador português Manuel Wiborg, Vou Lá Visitar Pastores, baseado na obra homónima de Ruy Duarte de Carvalho - Vou lá visitar pastores. Exploração Epistolar de um
Percurso Angolano em Território Kuvale
. Hoje, 9 de Novembro, no Rio de Janeiro, no Teatro do Planetário. Depois em São Paulo em data e local a confirmar.

Existe uma edição brasileira de
Vou Lá Visitar Pastores, na Gryphus.
Ruy Duarte de Carvalho é cidadão angolano. Poeta, ensaísta, ficcionista, é autor de vasta obra literária. Antropólogo doutorado pela Sorbonne/Paris e professor de Antropologia (Universidades de Luanda e Coimbra) é também cineasta com inúmeras horas de cinema etnográfico. Edita em Portugal na Cotovia.


Novembro 4, 2004

Escrita em Dia

Para os leitores portugueses, em Portugal: o autor entrevistado este domingo passado no programa Escrita em Dia, da Antena Um, foi Alfredo Luiz Garcia Roza, o autor de Uma Janela em Copacabana, O Silêncio da Chuva, Achados e Perdidos ou O Perseguido.
No próximo domingo será Heloísa Seixas. Recordo que a emissão vai para o ar à meia-noite de domingo para segunda-feira, na Antena Um, sendo depois repetida na RDP-África (às 23:59 de segunda-feira) e na RDP-Internacional (21:05 de quarta-feira) -- são horas de Lisboa.

Heloísa Seixas, carioca, foi jornalista e funcionária da ONU. Actualmente é escritora, publicou sete livros desde a revelação extraordinária de
O Pente de Vénus, Histórias do Amor Assombrado”, publicado em 1995. Semanalmente, assina a secção «Contos Mínimos», na revista de domingo do Jornal do Brasil. O seu mais recente romance é Pérolas Absolutas (Record), que também esteve na lista dos candidatos ao Jabuti.

Links, mais sebos

O Cisco recomenda o Traça e o Beco dos Livros, dois sebos de Porto Alegre. Em breve terão uma visita.
Na lista de blogs, ao fundo e à direita, acrescentámos mais uns links enviados pelos leitores do Gávea.

Outubro 29, 2004

E, por isso mesmo...

E, mesmo em Fernando de Noronha, dá para assinalar que o Gávea se antecipou largamente aos «segundos cadernos» da Folha, do Globo e do Estadão do fim-de-semana passado, que chamavam a atenção para a publicação dos dois volumes de O Continente, de Erico Verissimo, que era o grande destaque das suas primeiras páginas. O Gávea já tinha assinalado o acontecimento há uns dias...

Apesar disso...

Mas, apesar de Fernando de Noronha ficar um bocadinho distante de quase tudo, gostaria de chamar a atenção para os comentários ao post «Acordo Ortográfico»; vê-se que a polémica promete continuar ou pelo menos agudizar-se. Contra ou a favor de um acordo ortográfico da língua portuguesa?

Já de regresso



O Gávea está aqui em peregrinação mas volta já ao quartel-general, carregado de literatura e de novidades. Morram de inveja, canibais!

Outubro 23, 2004

Links, blogs, autores, sebos

A partir de hoje, o Gávea conta com uma lista de blogs do Brasil. Está aí, na coluna da direita, ao fundo. Agradecemos sugestões e envio de links; como habitualmente, um selecção de links estará sempre em movimento.

De igual modo, foram acrescentados alguns links de escritores e outros sites, e também uma secção de sebos (alfarrabistas, para leitores portugueses). Evidentemente que encontrar sebos online é quase contraditório. Para uma lista pormenorizada de sebos brasileiros, veja-se esta lista, que é de grande ajuda para várias cidades do Brasil.

Fabio Danesi Rossi



O livro é Todas as Festas Felizes Demais (edição Barracuda), de Fabio Danesi Rossi: 34 contos curtos e extra-curtos, para ler rápido. Vorazes, as histórias devoram-nos. Quod erat demonstrandum. Etc., etc.

Fabio Danesi Rossi nasceu em São Paulo em 1974. Estudou Marketing e colaborou na Folha de S. Paulo. Mantém um blog, o FDR.

Licencioso

«Não existe bom escritor brasileiro; se existisse, escreveria diretamente em inglês (literatura é um costume anglo-saxão imitado por outros povos com variados graus de incompetência) para vender seus livros num mercado digno do nome e ser lido por gente com cérebro homeotérmico. Não sei de nenhum, no Brasil, capaz de fazê-lo - mesmo entre os melhores, que sabem das coisas. O português brasileiro é um idioma insalubre: o lugar onde melhor é falado é o Maranhão, e o pior, São Paulo. Usá-lo corretamente pode causar desnutrição, barriga-d'água e cisticercose.» Contos Licenciosos.

Oswald de Andrade

Oswald de Andrade morreu a 22 de Outubro de 1954. São Paulo assinala. O Gávea tratou há tempos o Manifesto Antropófago e o próprio Oswald.

Acordo Ortográfico, 2. Uma precisão.

Carlos Alberto Xavier, o assessor especial do ministro da Educação, referiu-se, nas suas declarações sobre o Acordo Ortográfico, a casos específicos do português de Portugal e do Brasil. Entre outros exemplos, este:
«Para facilitar a cooperação na África e no Timor, por exemplo, é fundamental essa ‘universalização’. Não dá para uma professora dizer ‘dictado’, seguindo um livro de Portugal e ‘ditado’ quando utilizar um livro do Brasil.»
Não é verdade. No português de Portugal escreve-se «ditado» e não «dictado».

Acordo Ortográfico

Brasil espera que Portugal e Cabo Verde ratifiquem acordo ortográfico da língua portuguesa.
«São 21 as bases de mudanças na ortografia da língua portuguesa. Com a reforma, o trema deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados. O alfabeto passará a ter 26 letras, pois incluirá k, y e w. O h inicial e final das palavras também sofrerá alteração e permanecerão com ele apenas as palavras indicadas pela etimologia, por exemplo: homem, que vem do latim, homini.
Segundo nota divulgada pelo Itamaraty, "estima-se que a entrada em vigor do Acordo Ortográfico poderá evitar o grande custo de produção de diferentes versões de dicionários e livros em geral. Será também mais fácil estabelecer critérios unificados para todos os países de língua portuguesa, com relação a exames e certificações comuns de proficiência de português para estrangeiros".»

Outubro 19, 2004

O Brasil por Joel Silveira


«É noite e São Paulo rico está resumido ali na pista do Jequiti-Bar. Durante o dia, as mulheres fizeram coisas inúteis: acordaram tarde, almoçaram em bloco, jogaram pife-pafe, compraram a revista Sombra, tomaram chá na Livraria Jaraguá, jantaram na Papote e falaram das amigas.
Os homens ganharam dinheiro. Alguns não fizeram muito esforço para isso: apenas assinaram alguns papéis. Outros estiveram nas fábricas, conversaram com o gerente, telefonaram para o Rio. À tarde foram ao Automóvel Club, um lugar triste como um cemitério. Perderam algum dinheiro em jogos inocentes; mas o que perderam nem chega a representar uma humilde fração dos lucros que conquistaram durante o dia.»

Este é um trecho de A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira (nasceu em 1918), «o jornalista que cobriu fatos que marcaram a vida política do país e, no Rio de Janeiro, conviveu com artistas e intelectuais como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga». Em A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, o tema é São Paulo -- mas vai ser lançado na próxima semana A Feijoada que Derrubou o Governo, mais textos dispersos de Joel Silveira sobre o Brasil (edição da Companhia das Letras).

Blog da Júlia, Nove de Copas

Vale a pena visitar o blog Nove de Copas ; Júlia escreve com uma lentidão melancólica, cheia de poeira:
«me deu tanta vontade de te responder. eu me lembro dessa conversa sobre a calça de lycra como num sonho. talvez tenha sido de noite. eu e o ... nos encontrávamos muito à noite. era sempre assim, de noite era mais leve, era cheio de festa. não era boemia, era vida noturna mesmo.
fico pensando no que eu era antes. coisas que estão gravadas aqui. coisas que você escreve no blog e que eu queria ter tido para uma amiga que agora lê petrarca. tudo se encaixa. tenho um conto que ainda não existe e vivo sempre como um eco. os anos passados, as alegrias seguintes.
e nossos encontros. fora da página também é bonito.»

Letícia


Em Portugal teve algum sucesso A Casa das Sete Mulheres (edição brasileira na Record, edição portuguesa na Ambar -- além da série televisiva da Globo, que passou na Sic em Portugal). Para os interessados no género, aqui fica a capa de Um Farol no Pampa, de Letícia Wierzchowski, ainda sem edição portuguesa (publicado pela Record)

Alberto Mussa



Foi destaque na edição de sábado de O Globo (segundo caderno, link não disponível): é o novo livro de Alberto Mussa, O Enigma de Qal (edição Record), que encena «a busca fictícia da solução de um famoso enigma da cultura árabe», e roda em torno do poeta al-Gatash:
«Era o estímulo para uma exegese alegórica. Spíridon analisou a cena: três pessoas em três cruzes, cada cruz com quatro extremos -- 3, 3 e 4: portanto, um triângulo iósceles de perímetro 10 e de altura menor que a bae -- signo da natureza humana. Altura menor que a base indica maior propensão à terra que ao céu. O valor do perímetro, 10, é o dobro de 5 -- que são os extremos do corpo físico. A qualidade de isósceles, ou seja, a de possuir dois lados iguais, representa o equilíbrio do Bem e do Mal.»
Alberto Mussa nasceu no Rio de Janeiro em 1961. Estudou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi professor. Livros anteriores: Elegbara (Revan, 1997), O Trono da Rainha Jinga (Nova Fronteira, 1999, que foi prémio da Biblioteca Nacional)

Mais, muito mais Millôr


O Tiago Luís dá uma dica aos fanáticos de Millôr Fernandes:
«Há uma página que tem vários textos do nosso velhote. Para consultar a maior parte tem que ser assinante, excepto o Daily Millôr (na coluna do lado esquerdo) onde se podem ler quase duzentos textos.»
Obrigado, Tiago; continuamos à espera de mais sugestões.

Outubro 16, 2004

Na Academia, corando

Terminou em beleza o «passatempo Luana Piovani» aberto pelo Gávea. Ao vigésimo segundo email (e mais uma dezena de comentários), uma leitora acertou no nome da escritora portuguesa. Infelizmente, a resposta chegou uns minutos depois de encerrarmos o passatempo. Nada de prémios e a Academia continua em Copacabana.

Meg

A excelente Meg Guimarães, do Sub Rosa corrige-nos, e ainda bem. Foi uma distracção, digamos, fatal: o título da biografia de Nelson Rodrigues, por Ruy Castro, leva o título de O Anjo Pornográfico e não Flor de Obsessão, naturalmente. Flor de Obsessão é o título do livro que reúne extractos da obra de Nelson. Ambos os livros foram publicados pela Companhia das Letras. O post em que tínhamos errado está lá em baixo, muito em baixo -- é o segundo da vida do Gávea. Desculpa o atraso, Meg.

Cosac Naify

A sempre atenta Cristina Fernandes, do blog português Janela Indiscreta recomenda mais um link para a coluna das editoras, ali em baixo, à direita: o da Cosac Naify. A ter em atenção a qualidade gráfica dos seus livros.

O Gávea em italiano

Rosella Pristerà mantém um blog, em Itália, onde traduziu a nossa referência ao manifesto antropofágico de Oswald de Andrade. O blog de Rosella chama-se Diario di Bottega.

História


Com Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende. Os quatro mineiros que viraram mito.

Entretanto, fica aqui o site exclusivamente dedicado à vida & obra de Sabino.

«No fim tudo dá certo. Se não deu, é porque ainda não chegou ao fim.»

Leituras


Ler as crónicas de Paulo Roberto Pires, «O Encontro Adiado», e de Sérgio Rodrigues, «Um Mestre sem Imaginação».

Fernando Sabino por Zuenir, hoje


Zuenir Ventura, mineiro, escreve hoje em O Globo, sobre Fernando Sabino, mineiro.
«Nunca acompanhei um enterro como o de Fernando Sabino. Acho que foi como ele queria. Os amigos conversavam, riam, contavam histórias e não iam embora, apesar do forte mormaço. Foi o mais demorado que se tem memória. “Se colocarem um copo de cerveja em cima do túmulo, ninguém mais sai daqui”, comentou o deputado Miro Teixeira, marido de Leonora, filha de Fernando. O ponto alto (já ia escrever “da festa”) foi a Ramblers Traditional Jazz Band tocando músicas como nos funerais negros de Nova Orleans. O cronista deve ter gostado. Claro que teria preferido participar da apresentação tocando bateria, como fizera um ano antes quando reuniu alguns amigos para comemorar o seu 80.º aniversário.
[…] Vi muita gente rir chorando. Verónica entre lágrimas se lembrava rindo da última vez que estivemos com seu pai no bar da Livraria da Travessa, não faz muito tempo. Com uma boa platéia na mesa, Fernando estava especialmente engraçado. Como no enterro, não queria deixar ninguém ir embora. Quando alguém ameaçava se levantar, ele perguntava: “Vai fazer um discurso?” E não parava de contar histórias: “Espera aí, ouve só a última do mineiro.” Eram as minhas preferidas, porque ele conhecia a alma de seu povo como a dele próprio.
Dizia que mineiro é tão cauteloso e desconfiado que não gosta de revelar nem a identidade.
– Qual é o seu nome todos? – pergunta o carioca.
– Diz a parte que você sabe – desconversa o mineiro.
Nessa outra, o escritor conta o diálogo com um motorista mineiro em Nova York:
– Ah, você também é de Minas?
– Sou, sim sinhô.
– De onde?
– De Minas mesmo.
Se consegue esconder de onde é, imagina quando lhe pedem uma opinião política.
– Que tal é o prefeito daqui?
– O prefeito? É tal qual eles falam dele.
– E o que é que eles falam dele?
– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo o que é prefeito.
Minas vai peder muito de sua graça sem as última do Fernando Sabino.»

Outubro 15, 2004

Sabino, Adeus


Quem nunca riu de verdade com os textos de Deixa o Alfredo Falar! não sabe o que perde. Fernando Sabino, um grande amigo de Portugal, morreu no passado dia 10. A sua biografia está neste link.

«Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino.»


Livros principais e a ler:
O Homem Nu, A Mulher do Vizinho, Deixa o Alfredo Falar!, O Encontro das Águas, O Grande Mentecapto, Cartas Perto do Coração (Correspondência com Clarice Lispector), A Volta por cima.

Era um magnífico cronista.

Milton Hatoum na Antena Um (rima e tudo...)



Informação para os leitores portugueses do Gávea: este fim de semana, à meia-noite de domingo (de domingo para segunda, portanto), Milton Hatoum é entrevistado no programa «Escrita em Dia», da Antena Um. Milton é o autor de Relatos de um Certo Oriente e de Dois Irmãos (Companhia das Letras, no Brasil; Cotovia, em Portugal). O próximo livro de Milton Hatoum sairá em 2005 e o cenário é, mais uma vez, a Amazónia e o mundo dos libaneses de Manaus.

A entrevista é repetida às 23:59 de segunda-feira na RDP África, e às 21:05 de quarta-feira na RDP Internacional (horas de Lisboa).

Cafajeste

Atenção ao blog português O Cafajeste, onde há muitos textos de autores brasileiros (e comentários sobre futebol brasileiro também) -- ele é fanático de Luis Fernando Verissimo. E é para ele que anunciamos a entrada do link sobre Millôr Fernandes na coluna da direita.

Zuenir

Está quase terminado o volume das memórias de Zuenir Ventura (ver link na coluna aí abaixo), nomeadamente sobre os seus 50 anos de jornalismo. Zuenir, mais um carioca nascido em Minas, pode ser lido semanalmente no O Globo -- e o livro será publicado em Fevereiro de 2005.

Memórias carioquinhas/2

Uma das canções do disco é o «Samba da Mala»: «Olha essa mulher que no samba entrou, é louca/ Samba mal e quer cantar, mas a voz é pouca…»

Memórias carioquinhas

E pessoais. Acaba de sair um CD com a «trilha sonora» do bar Bip Bip, um barzinho estacionado no centro de Copacabana, na Rua Almirante Gonçalves – tudo cheio de sambas e violões (vilões também…). O Bip Bip completa 35 anos «a serviço do porre e da amizade», coisas boas, e no CD há músicas com Renato Partideiro, Marcos China, Nize Carvalho (olha que boa voz…), Wilson Moreira, Aldir Blanc, Cristina Buarque, Nelson Sargento, Paulo César Pinheiro – e o cavaquinho impressionante de Wanderson Martins. Tudo isto, depois do livro sobre o bar, Bip Bip, um Bar a Serviço da Alegria (escrito e organizado por Marceu Vieira, Luiz Pimentel e Francisco Genu).

Verissimo, pai


Também na Companhia das Letras: continua a reeditar-se a obra completa de Erico Verissimo. Pessoalmente, Verissimo foi uma boa companhia da minha adolescência, sobretudo com Olhai os Lírios do Campo e as páginas de O Tempo e o Vento. Agora, estão aqui os dois volumes de O Continente, a história da formação do Rio Grande do Sul moderno (e federalista) diante de um Brasil distante.

Olha os gregos!


Eu acho bom esse modo de tratar os clássicos. Ruth Rocha já tinha abordado a Odisseia e lança-se agora na Ilíada, com Eduardo Rocha. Além da versão do original, há ainda ilustrações, mapas e notas explicativas. A edição é da Companhia das Letras.

Outubro 12, 2004

Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba

Aproveitando o feriadão brasileiro, recomendamos Dalton Trevisan. Em breve, mais textos deste autor. Por agora fica este, para abrir o apetite.
«– Depois te beijava da ponta do cabelo até a unha encarnada do pé. Cada pedacinho escondido de teu corpo. Afastava essa coxa branquinha de arroz lavado em sete águas. E me perdia no teu abismo de grandes lábios rosa.
Agora a mãozinha quente e molhada.
– Sou homem de certa idade. Com a minha vivência faria você sentir prazer até no terceiro dedinho do pé esquerdo. De tanto gozo sairia flutuando pela janela sobre os telhados da Praça Tiradentes. […] Quer experimentar hoje?
– Próxima vez eu resolvo.
– Por que não agora? Já está aqui. Tão fácil. Até chovendo. Mais aconchegante.
– Hoje não.
– Você é que sabe. Só não creio na tua frieza. Tudo me diz que é moça fogosa. Essa boca vermelha e carnuda. É de quem gosta. Mais uma coisa, anjo, enquanto eu falava, o teu narizinho abria e fechava…»
Dalton Trevisan, Continhos Galantes
[edição L&PM]

Outubro 9, 2004

Bernardo Carvalho na Antena Um

Para os nossos leitores portugueses: este fim de semana, à meia-noite de domingo (de domingo para segunda, portanto), Bernardo Carvalho é entrevistado no programa «Escrita em Dia», da Antena Um.

A entrevista é repetida às 23:59 de segunda-feira na RDP África, e às 21:05 de quarta-feira na RDP Internacional (horas de Lisboa).

Mais links

Marcelo Firpo sugere alguns links para o Gávea. Durante a semana iremos tratar deles; fica, para já, o da Livros do Mal, uma editora independente gaúcha, Rio Grande do Sul. Obrigado, Marcelo.

Outubro 7, 2004

Mais autores no Gávea

Foram adicionados mais links na secção «Escritores» (coluna à direita, em baixo): desta vez, Ronald de Carvalho, José Lins do Rêgo, Alcântara Machado, Cruz e Sousa, Graciliano Ramos, Gonçalves Dias, Manuel Antônio de Almeida e Lima Barreto. Foi também aumentada a lista de sites com livros on line, de onde se podem fazer downloads de clássicos portugueses a brasileiros, de Os Lusíadas às Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Manifesto Antropófago



«A revista de antropofagia não tem orientação ou pensamento de espécie alguma:só tem estômago.»



«Não fazemos crítica literária. Intriga, sim!»


A pubicação do Manifesto Antropófago é um momento crucial da literatura e da cultura brasileiras. Foi publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, em Maio de 1928, e assinado, por Oswald de Andrade «em Piratininga, Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha».
A ideia base: «Alimentar-se de tudo o que o estrangeiro traz para o Brasil, sugar-lhe todas as idéias e uni-las às brasileiras, realizando assim uma produção artística e cultural rica, criativa, única e própria. Era preciso desvincular-se de laços passados, como o simbolismo, ainda fortemente presente naquela época.» O Manifesto Antropófago", de 1928, é a resposta do escritor Oswald de Andrade às questões postas pela Semana de Arte Moderna (1922). Para ele, a renovação da arte brasileira nasceria da retomada dos valores indígenas. A iniciativa não era inédita. Após a Independência, o romantismo já havia usado esse «índio mitológico» para construir uma identidade nacional, oposta à dos europeus.
Oswald retoma essa temática, mas rejeita a xenofobia de outros modernistas. A civilização europeia não deveria ser rejeitada, mas sim absorvida. A antropofagia é o símbolo dessa tese: o europeu deve ser devorado.
[Ver também Semana de Arte Moderna de 1922.]

Excerto do Manifesto:
«Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
[…]
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
[…]
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura - ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo - a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, - o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: - Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.»

Texto integral pode ser lido aqui.

Oswald de Andrade


Adicionado link sobre Oswald de Andrade, o antropófago.

Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português


Oswald de Andrade nasceu a 11 de janeiro de 1890 e é um dos mais significativos autores modernistas da literatura brasileira. Participou da Semana de Arte Moderna, editou o jornal O Homem do Povo e ajudou a fundar O Pirralho e a Revista Antropofágica. É de sua autoria o Manifesto Antropófago de 1928. Morreu em São Paulo a 22 de Outubro de 1954. Biografia neste link.

Outubro 6, 2004

Paulinho Assunção, Kafka, Belo Horizonte, Joyce, abelhas

Recordações do outro, mais antigo, blog de Paulinho Assunção, o Kafka em Belo Horizonte, ou A Volta de Kafka em Belo Horizonte, para sermos mais precisos:
«Anteontem, Kafka, ao ver o verde-água das flores das jabuticabeiras, flores com tornados e furacões de abelhas em festa e revôos, as abelhas em saudações e reverências, abelhas orquestrais, abelhas nubentes com seus revôos de vésperas de frutos, pensei na moça que Vicente Gunz chama Cristina do Porto, a moça que também dá bons-dias e boas-tardes às florações das árvores portuguesas. Era manhã de fins de julho nos altiplanos do Alto do Paranaíba, lá onde nasceu João Serenus, lá onde os sanhaços vivem de namoro com as laranjeiras.»

«James Joyce nos visitou hoje na varanda da Rua Paraíba. Trazia um cachecol listrado, um chapéu com fitas verdes e ocupou o banquinho de sempre, um banco que fica ao sul da varanda e que dá para o jardim, quase rente ao canteiro de begônias cultivado pela Mulher da Aura Azul. Éramos seis, logo no começo da tarde. A todo instante João Serenus chamava Joyce para uma partida de truco. Joyce ria e solfejava velhas canções dublinenses. Murilo Rubião, no banquinho ao norte, admirava a coleção de borboletas-tigre de Vicente Gunz. A tarde caminhava de chinelos, preguiçosa e sem pátria, tarde de azuis cosmogônicos, fundos e profundos azuis da América do Sul. Tínhamos numerosas palavras leves, palavras-algodoais, no coração. E foi então que o Joyce, logo seguido por Lucas Baldus e, depois, por todos nós, decidiu cantarolar a quinta bachiana do Villa-Lobos.»

Blogs e sebos


Quantas vezes não passamos à porta dos sebos (alfarrabistas) e vemos essas colecções passadas pela poeira, pela humidade, pelo tempo? A mim, apetece-me levá-las para casa, folhear alguns dos livros, oferecer outros. No Alexandrinas há uma dessas evocações:
«Hoje passei num sebo aqui perto de casa e encontrei muitos volumes daquela coleção, publicada provavelmente lá pelos anos 70, dos ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura.
Você já deve ter visto; pelo menos aqui em São Paulo qualquer sebo tem. A capa às vezes é acobreada, às vezes branca, dependendo da edição. Um volume para cada ganhador do prêmio, um ou dois livros por volume. Bonitinha, gravações douradas na lombada, capa macia. Aquilo que se costumava chamar de "edição luxuosa" numa época em que isso não era tão comum.
A julgar pelas pencas de volumes disponíveis nos sebos de hoje, eles devem ter sido muito vendidos em seu tempo. Mesmo caros como suponho que eram.
Impossível não sorrir imaginando o público-alvo da série. Armandinho, o pequeno-burguês brasileiro de todas as épocas, que quer ter cultura e se familiarizar com a alta literatura de seu tempo. Não que ele próprio tenha muita consciência desse desejo, mas os publicitários e editores têm, e volta e meia atingem em cheio o coração de Armandinho com alguma nova surpresa.»

Caio Fernando Abreu

Depois de ter mencionado Caio Fernando Abreu (ver texto mais abaixo e reprodução da capa de Onde Andará Dulce Veiga?), deparo com esta nota, publicada no O Crítico Literário:
«Este parece ser o primeiro e último romance de Caio Fernando Abreu. Um jornalista à procura de uma atriz famosa, Dulce Veiga, encontra sua filha, que é uma roqueira. Tem muitos pontos onde poderia-se dizer que o autor sofria de pedantismo intelectual, porém isso não é verdade, considerando que pedantismo é algo de conhecimento burlesco, enquanto Caio Abreu tinha notável erudição. Pelo contrário. O jornalista, personagem principal do livro, é muito culto, gosta de coisas refinadas, e isso transparece em sua narração.
O jornalista vislumbra, na frente do Parque do Ibirapuera, em determinado trecho, uma mulher fazendo o mesmo aceno que Dulce Veiga fazia: colocar o dedo indicador da mão apontando para o céu. Em Aparecida do Norte que supostamente ela está escondida - pois ela fugiu da cidade de São Paulo, para encontrar sua paz. Seria a mulher do Parque a própria Dulce Veiga? Ele fica obsessivo com o gesto dela, e no final do livro ele encontra a paz que julga merecer, justamente em Aparecida do Norte, quando tenta encontrá-la.
Vale a pena ler o livro, é uma história de crise-superação, de certa forma. O jornalista está imensamente estressado, sem dinheiro e tudo mais, e no final encontra a sua paz, que está buscando faz tempo. Ele encontra, no caso, a paz, internamente, dentro de si mesmo, e faz o gesto de Dulce Veiga, apontando o indicador ao céu.»

Outubro 5, 2004

Clarice Lispector partilhada

O blog português Leitura Partihada está a comentar e a ler, passo a passo, Clarice Lispector. Uma das suas próximas leituras partilhadas será A Grande Arte, de Rubem Fonseca.

Ainda a Academia Brasileira de Letras. O caso de Adelita.

Vale a pena ler o texto de Auguto Nunes sobre o assunto e sobre o caso de Adelita. Pergunta-se o leitor português: quem é Adelita? Perguntam-se os leitores brasileiros: quem é essa Adelita? Pois, meus amigos, era um general. Leiam:
«Os integrantes da Academia Brasileira de Letras andam audaciosos demais. Ainda há pouco a turma que hoje organiza festas com a presença de colossos femininos (eventualmente sem calcinha, como comprovou a modelo e atriz Luana Piovani) nem sequer admitia a inclusão de escritoras na veneranda Casa de Machado. O primeiro mandamento do clube avisava: homem com homem, mulher com mulher. A mistura de sexos, mesmo naquele templo tão austero, poderia sugerir indícios de promiscuidade.
Isso acabou quando já passava da hora: a ABL revogara pudores havia anos. Na década de 70, por exemplo, atropelara as últimas fronteiras da obscenidade ao conceder uma vaga a Aurélio de Lyra Tavares. Quem é a figura?, perguntarão os mais jovens. Que obras legou à posteridade esse intelectual tão pouco familiar à nação dos desmemoriados?, talvez se interroguem brasileiros de todas as idades.»
O resto do texto está aqui.

Outubro 4, 2004

Descobrimos um meio de aparecer no Ibope...



O texto «Luana, Marmelo, Academia Brasileira de Letras» aumentou consideravelmente as nossas visitas e, ao mesmo tempo, a taxa de ocupação da caixa de correio. Informamos que ainda não há respostas certas para a pergunta que deixámos aí em baixo.

Na foto, Luana Piovani (que já foi musa inspiradora e obsessão de Luis Fernando Verissimo), sentada na Academia Brasileira de Letras, olhando para o busto de Machado de Assis. O cavalheiro ao lado não é
Austregésilo de Athayde, antigo presidente da Academia, mas sim o namorado.

Paulo Francis e Ênio Silveira

Paulo Roberto Pires, que foi editor da Planeta (Brasil) escreve um texto sobre dois nomes que marcaram a vida intelectual brasileira, Paulo Francis e Ênio Silveira.
«A posteridade foi infinitamente mais cruel com Francis, que virou a caricatura do reacionário em tempos politicamente corretos e, pior ainda, passou a ser idolatrado por isso. Dezenas de subarticulistas o elegem santo padroeiro para escorar vacilações intelectuais e agressividade verbal, sem levar em conta que o Paulo Francis a que tanto exaltam não foi um personagem dado e acabado, mas o resultado de um percurso intelectual rico e conturbado que seus admiradores de hoje certamente não teriam a mesma coragem em percorrer, bons fiscais de obras prontas que são.
Ênio Silveira é referido, muitas vezes, como o modelo do editor "romântico", uma espécie de doce anacronismo na tubaronagem do negócio editorial globalizado. É aquele nome que se homenageia com condescendência, minimizando quase sempre sua real contundência política e sua efetividade como empresário, sempre mobilizado em encontrar novas soluções para um produto cada vez mais difícil de vender como o livro. E, na maior parte das vezes, é minimizado que sua ousadia não se restringia à ideologia, muito pelo contrário, mas na possibilidade de apostar no novo, esta ainda existente mesmo em momentos de pragmatismo agudo.»
Todo o texto no No Mínimo.

Verissimo & Rubem

Mas se pensam que o Jorge Marmelo é um escritor fescenino e libidinoso que apenas presta atenção às belas letras brasileiras quando ocorrem acontecimentos piovanianos, desiludam-se. O Jorge é um dos portugueses mais atentos e informados sobre literatura brasileira. Justamente, chamou a atenção do Gávea para a publicação, no Portal Literal, do primeiro conto de Rubem Fonseca e da primeira crónica de Luis Fernando Verissimo. Obrigado, Jorge.

Luana, Marmelo, Academia Brasileira de Letras


O Jorge Marmelo, no seu blog Apenas Um Pouco Tarde, descobriu que o Gávea estava de férias quando viu que não nos tínhamos referido ao magnífico momento em que Luana Piovani entrou na Academia Brasileira de Letras e, num cruzar-descruzar das pernas, mostrou aos fotógrafos (e ao sereno e literário busto de Machado de Assis, patrono dos patronos) que não usava calcinha nessa tarde. Bom, sabendo que a Piovani não é um modelo de inteligência literária, mas, supondo que não estivesse a mascar chiclete, não podemos senão congratular-nos com a graça do momento. Levantai-vos, académicos! Esqueçam os erros ortográficos da Piovani!

Já agora: Luana Piovani não foi a única presença feminina a ter chocado (chocou?) o augusto busto de Machado de Assis na ABL. Há anos, uma escritora portuguesa foi também protagonista de um momento de evanescência tropical. Cederemos a password do blog a quem acertar.

Primavera dos Livros em São Paulo

A Primavera dos Livros paulista (no Rio de Janeiro decorreu no Jockey Club, bem perto da Gávea, justamente...) vai ter lugar entre 5 e 7 de Novembro, no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000). Abre às 10:00 da manhã e fecha às 23:00 horas.

Nelson Motta, mais um noir


Depois de O Canto da Sereia (Um Noir Baiano), sua estreia no romance policial com um cenário cheio de música, mães de santo, carnaval, trios eléctricos e Salvador por todo o lado, Nelson Motta avança com um novo noir: trata-se de Bandidos e Mocinhas (edição Objetiva). Assunto para abertura: Lana Leoni é uma actriz sexy e decadente que morre no palco, misteriosamente assassinada durante a encenação de um polêmico sucesso teatral carioca.

Sophia no Brasil


Com selecção de poemas e prefácio de Vilma Arêas, a Companhia das Letras acaba de publicar Poemas Escolhidos, de Sophia de Mello Breyner Andresen. E com uma capa muito bonita e excelentes cuidados gráficos.

Cony em Portugal

Quase Memória, premiado romance de Carlos Heitor Cony sobre a vida de seu pai, será publicado em Portugal pela editora Palavra.

Mais autores no nosso arquivo

O bom Sérgio Oliveira, do Rio de Janeiro (onde prepara o seu doutoramento em Filosofia – além de manter o blog A Jangada de Letras), propõe links para mais três autores brasileiros: Caio Fernando Abreu, Victor Giudice e Paulo Leminski. Obrigado, Sérgio.


Caio Fernando Abreu é um autor a visitar e a revisitar. Pode ler-se o seu Onde Andará Dulce Veiga? (romance, publicado pela Companhia das Letras), Triângulo das Águas (contos, edição Siciliano) ou Estranhos Estrangeiros (mais contos, Companhia das Letras). Caio nasceu em 1948, em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, e morreu em 1996, em Porto Alegre. Publicou doze livros, vários deles traduzidos para o francês, o inglês, o alemão e o holandês.

Depuração em curso

Via Folha de São Paulo: Governo distribui kit para combater racismo em escola.

Livros na BN

A leitora Luciana Rodrigues recomenda também uma visita ao site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (link na coluna ao lado), onde existe também a possibilidade de fazer download de livros brasileiros. No entanto, esclarecimento adicional, o site da BN não é muito friendly para browsers que não tenham a chancela Windows, ou seja, que não sejam o Internet Explorer.

Este pequeno texto é uma grande barafunda linguística, eu sei. Browser, friendly, site, etc.

Real Gabinete, uma adenda

Edifícios destes não são de menosprezar; e a verdade é que às vezes são injustamente ignorados. O Real Gabinete, para quem vive no Brasil, é de grande utilidade: tem um arquivo informatizado de cerca de 400 000 títulos e possui a prerrogativa do «depósito legal» português, o que significa que recebe os livros publicados em Portugal. Além disso faz empréstimo de livros.

Real Gabinete, Portugal no Rio


O leitor ECG propõe o link do Real Gabinete Português de Leitura, e faz muito bem. O Real Gabinete é um edifício belíssimo, o seu hall de entrada é fantástico, e a sua biblioteca não é nada menosprezável. Infelizmente, nem sempre tem a atenção que merece.

Imagens da biblioteca e da fachada do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (Rua Luís de Camões, 30 - Centro - Rio de Janeiro - RJ - CEP: 20051-020. # Telefone: (+ 55 21) 2221-3138 Tel/Fax: (+ 55 21) 2221-2960)

Mais livros online

A Ana Albergaria (que mantém, em Paris, o blog Crónicas Matinais) recomenda outro link para download de livros brasileiros online, o do Terra. Obrigado, Ana. Shalom.

Brasil em Portugal


A rádio portuguesa Antena Um (pode acessar-se neste site) acaba de transmitir uma entrevista com Luiz Antônio Assis Brasil no «Escrita em Dia» (domingos para segunda, à meia-noite); trata-se de uma série de conversas com escritores brasileiros. Na semana passada, foi Moacyr Scliar. Seguem-se, por esta ordem, semana a semana, Bernardo Carvalho (prémio Jabuti deste ano, autor de Mongólia, Aberração, Teatro, etc.), Roberto Pompeu de Toledo (cronista da Veja e autor de São Paulo, Capital da Solidão, edição Objetiva), Milton Hatoum (autor de Relatos de um Certo Oriente e de Dois Irmãos, edição portuguesa na Cotovia), Heloísa Seixas (autora de O Pente de Vénus, Histórias do Amor Assombrado, edição Record, que pode ser lida semanalmente no Jornal do Brasil, na sua coluna «Contos Mínimos»), Sérgio Sant’anna (autor de O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, de Junk Box, de O Monstro”, de Um Crime Delicado e de O Voo da Madrugada, este último publicado em Portugal pela Cotovia), Zuenir Ventura (colunista de O Globo, autor de 1968, o Ano que não Terminou, de Cidade Partida e de Mal Secreto, da Objetiva) e, finalmente, de Luiz-Alfredo Garcia Roza (autor de O Silêncio da Chuva, Achados e Perdidos, Vento Sudoeste ou Uma Janela em Copacabana, publicados no Brasil pela Companhia das Letras e em Portugal pela Gótica). São várias semanas de rádio luso-brasileira.

O «Escrita em Dia» é emitido na Antena Um à meia-noite da madrugada de domingo para segunda; às 23:59 de segunda-feira na RDP África; e às 21:05 de quarta-feira na RDP Internacional (horas de Lisboa).

Regresso

Obrigado pelas mensagens. O Gavea foi esteve de férias durante duas semanas. Regressa para mais páginas de livros.

Setembro 17, 2004

Debate no Gávea

Ainda André Murteira, que responde ao desafio lançado por Fernando Frazão há uns dias -- acerca da literatura brasileira actual, e se a actual é inferior à do passado «ou apenas menos conhecida entre nós do que era dantes»:
«Eu não nego o desconhecimento, com o qual perdemos muito; mas, do pouco que sei, parece-me também que o próprio Brasil não reconhece actualmente figuras canónicas comparáveis às que teve o século passado. Corrijam-me se estou errado, mas onde é que lá há hoje poetas vivos com uma reputação comparável à que tiveram, em vida, Drummond ou João Cabral de Melo Neto? Ou romancistas com o estatuto de Guimarães Rosa, também consagrado em vida? Ao contrário do que acontecia no tempo deles, a "opinião estabelecida" no Brasil não parece achar que haja autores brasileiros vivos particularmente geniais. E isso confirma a impressão da sua literatura viver um certo declínio, embora relativo.»

Aguardam-se mais contributos.

Paulo Francis/2

O André Murteira, leitor do Gávea, recomenda mais um link sobre Paulo Francis, além daquele que já tínhamos indicado (ver coluna dos links).
Além disso, envia também um link com o site de Daniel Piza, a consultar e a reter.

Setembro 16, 2004

Primavera dos Livros


Começou hoje, no Jockey Clube do Rio de Janeiro (ah, que lugar!) a quarta edição da Primavera dos Livros.

Setembro 15, 2004

Livro Aberto

O programa governamental Fome Livro, que este ano se designa Livro Aberto, escolheu 2.016 títulos para distribuição nacional em bibliotecas (apenas 130). Há alguma polémica, como se esperava, mas foi o princípio. No site da Fundação da Biblioteca Nacional vem a lista dos livros escolhidos.

Mais livros online

O IG (provedor brasileiro que esta semana mudou o nome Internet Grátis para Internet Generation) lançou também um serviço de download (com .zip) de textos integrais de língua portuguesa -- há também clássicos portugueses, como Alexandre Herculano, Eça, Camilo, Garrett, Pessanha, Antero de Quental, Cesário, Florbela Espanca, Gil Vicente, Júlio Dinis ou Vieira -- além de Camões, naturalmente. Tem alguma vantagem sobre outros sites de livros online, uma vez que o download é imediato. Outro pormenor: além dos clássicos de Língua Portuguesa tem, disponível em inglês, entre outros, Joseph Conrad, Poe, Shakespeare (Hamlet, Othello, MacBeth...), Milton (o Paradise Lost...), Agatha Christie, Jane Austen, Darwin, Hardy, Swift, etc., etc. Também aqui, a vantagem é a rapidez do acesso.
Tal como os outros sites, constitui um bom banco de livros de literatura brasileira. Infelizmente, os textos não possuem ficha competente, mas não se pode ter tudo.

Vinicius


Depois de protestos pela nossa falta, já está adicionado o link para Vinicius de Moraes.

Setembro 14, 2004

Bíblias no Brasil

Brasil lidera publicação de Bíblias no mundo.

José Eduardo Agualusa

Alguma polémica, na blogosfera portuguesa, sobre a recente entrevista de José Eduardo Agulusa na revista Época -- nomeadamente, as suas frases sobre Saramago. Agualusa acaba de lançar, no Brasil, O Vendedor de Passados (edição da Gryphus).

Ruy Espinheira Filho

Livro do poeta Ruy Espinheira Filho sobre Manuel Bandeira: Forma e Alumbramento. Poética e poesia em Manuel Bandeira (edição José Olympio). O lançamento é no dia 17, em Salvador (onde vive Ruy), na Civilização Brasileira do Shopping Barra. Um de nós estará lá. Ver entrevista de Ruy Espinheira Filho na edição da Época desta semana (link não disponível).

Blogs/vária

Em breve teremos, no Gávea, uma lista de blogs brasileiros e portugueses que tratam do que nós tratamos. Está em organização. Entretanto, aceitamos sugestões que possam escapar à nossa navegação. O endereço de email é para usar.

Lisboa/Rio Grande do Sul

Um português e uma gaúcha decidiram unir as duas margens do Atlântico num blog. Mais literatura.

Dúvidas de método

O Fernando Frazão, que evoca «as carrinhas de chapa ondulada da Gulbenkian que tanto contribuiram para o meu gosto pela leitura» a propósito do post sobre as Bibliotecas do Metrô, em São Paulo, coloca duas questões curiosas: 1) «Depois da pujança da literatura brasileira do século passado assiste-se nomeadamente na sua primeira metade assiste-se a um decrescer de produção em quantidade e em qualidade ou é mero desinteresse dos editores portugueses?» 2) «Comparando o português escrito por brasileiros por autores classicos (Amado, Verissimo etc) com os modernos, noto um afastamento notavel em relação aos português dos portugueses. Será que é preciso traduzir ou "reformatar" os textos?»

Respostas breves, mas só para iniciar o debate -- esperamos contribuições dos leitores do Gávea: 1) Há, em Portugal, falta de informação sobre literatura brasileira de hoje, embora o salto qualitativo das edições tenha sido notável (Bernardo Carvalho, Patrícia Melo, Rubem Fonseca, Sérgio Sant'anna, Raduan Nassar, Adélia Prado, Cecilia Meirelles, Milton Hatoum, Chico Buarque, entre outros, têm sido publicados com regularidade -- depois de um período em que não houve resposta por parte do público) -- embora faltem João Gilberto Noll, por exemplo, Adriana Lisboa, Assis Brasil, por exemplo; 2) Não, não, não. Somos contra a reformatação dos textos. Basta ler, basta ver.

Paulo Francis

António Ramos, outro leitor atento do Gávea, propõe uma página sobre Paulo Francis, a quem dedicaremos em breve alguns posts; é sempre bom lembrá-lo.

Raduan Nassar, correcção

Correcção feita pelo Carlos Cunha (do blog Partículas Elementares, e leitor atento de Nassar): a edição portuguesa dos livros de Raduan Nassar é da Relógio d'Água e não da Cotovia.

Setembro 10, 2004

Recensões/resenhas

Mongólia, de Bernardo Carvalho, lido por Claudinei Vieira; Budapeste, de Chico Buarque, lido por Urariano Mota; de Abusado, de Caco Barcellos, por Rodrigo Barreto. Cortesia do site (ah, Flor do Lácio!, devíamos dizer «sítio»?) Capitu

Intercâmbio cultural


Vale a pena, por causa das notas de rodapé. Do género: «Gabriel Alves: famoso locutor esportivo.» Edição brasileira na Ediouro.

Budapeste


Extracto de Budapeste, de Chico Buarque, o prémio recebido em silêncio:
«Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio. A companhia ofereceu pernoite num hotel do aeroporto, e só de manhã nos informariam que o problema técnico, responsável por aquela escala, fora na verdade uma denúncia anônima de bomba a bordo. No entanto, espiando por alto o telejornal da meia-noite, eu já me intrigara ao reconhecer o avião da companhia alemã parado na pista do aeroporto local. Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita. Apaguei a tevê, no Rio eram sete da noite, boa hora para telefonar para casa; atendeu a secretária eletrônica, não deixei recado, nem faria sentido dizer: oi, querida, sou eu, estou em Budapeste, deu um bode no avião, um beijo. Eu deveria estar com sono, mas não estava, então enchi a banheira, espalhei uns sais de banho na água morna e me distraí um tempo amontoando espumas. Estava nisso quando, zil, tocaram a campainha, eu ainda me lembrava que campainha em turco é zil. Enrolado na toalha, atendi à porta e topei um velho com uniforme do hotel, uma gilete descartável na mão. Tinha errado de porta, e ao me ver emitiu um ô gutural, como o de um surdo-mudo. Voltei ao banho, depois achei esquisito hotel de luxo empregar um surdo-mudo como mensageiro. Mas fiquei com o zil na cabeça, é uma boa palavra, zil, muito melhor que campainha. Eu logo a esqueceria, como esquecera os haicais decorados no Japão, os provérbios árabes, o Otchi Tchiornie que cantava em russo, de cada país eu levo assim uma graça, um suvenir volátil. Tenho esse ouvido infantil que pega e larga as línguas com facilidade, se perseverasse poderia aprender o grego, o coreano, até o vasconço. Mas o húngaro, nunca sonhara aprender.»

Os outros romances de Chico Buarque: Benjamim e Estorvo, publicados no Brasil pela Companhia das Letras; em Portugal pela Dom Quixote. Está ainda publicado, pela Companhia das Letras, Chico Buarque: Letra e Música (Vol. 1), reunião das suas canções.

Jabuti: os prémios máximos

Via Folha de São Paulo:

«Chico Buarque e Caco Barcelos são os vencedores do prêmio máximo do Jabuti. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou, na noite de ontem, os dois vencedores das principais categorias do Jabuti, em cerimônia realizada no Memorial da América Latina, em SP.
O livro-reportagem Abusado, de Barcelos, e o romance Budapeste, de Chico, foram eleitos Livro do Ano-Não Ficção e Livro do Ano-Ficção, respectivamente. O anúncio de Barcelos como vencedor foi muito aplaudida. A vitória de Budapeste, ao contrário, foi recebida com silêncio. O livro de Chico não constava da lista de vencedores já conhecida até então, tendo recebido anteriormente menção honrosa como romance.»

Causa estranheza, de facto, esta atribuição do prémio a Budapeste.

Bernardo Carvalho



Além de repetir o Jabuti, este ano, Mongólia, de Bernardo Carvalho recebeu já a distinção de melhor livro pela Associação Paulista de Críticos de Arte e disputa (ver post mais abaixo) o prémio Portugal Telecom Brasil 2004.
Extracto de Mongólia:
«Foi chamado de Ocidental por nômades que não conseguiam dizer o seu nome quando viajou pelos confins da Mongólia. Fazia tempo que eu não ouvia falar dele, até ler a reportagem no jornal. Voltou da China há cinco anos e largou a carreira diplomática. Sua volta intempestiva coincidiu com a eclosão da crise da pneumonia atípica na Ásia, o que pode ter servido de explicação para alguns, mas não para mim. O jornal diz que ele morreu num tiroteio entre a polícia e uma quadrilha de seqüestradores, quando ia pagar o resgate do filho menor no morro do Pavãozinho. Pela idade do garoto, só pode ser o que nasceu em Xangai, logo antes de voltarem para o Brasil, quando ele decidiu mudar de vida sem dar satisfações a ninguém. Ao que parece, também saiu de casa em sigilo, terça-feira de manhã, para pagar o resgate. Não avisou ninguém, muito menos a polícia. Seguiu à risca as ordens dos seqüestradores. Os policiais o seguiram assim mesmo, sem que ele percebesse. O menino foi salvo, mas ele morreu no local. Tinha quarenta e dois anos. Ninguém vai ser responsabilizado, é claro. A polícia alega que ele foi imprudente. Liguei para um diplomata do Itamaraty que vive em Varsóvia e que o conhecia desde pequeno. Eram amigos de infância. Estava muito abalado. Decidira pegar o primeiro avião para o Brasil, que partia de Frankfurt naquela mesma noite. Estava de saída para o aeroporto. Não tinha tempo para falar comigo. [...] A literatura já não tem importância. Bastaria começar a escrever. Ninguém vai prestar atenção no que eu faço. Já não tenho nenhuma desculpa para a mais simples e evidente falta de vontade e de talento. O fato é que a notícia da sua morte me deixou ainda mais prostrado. Foi uma razão a mais para não sair. Não sou um homem especialmente corajoso, e os anos foram me deixando cada vez menos. Em princípio, ele também não era de correr riscos. Mas, ao contrário do que acontecia comigo, a impaciência e o destino o impeliam irremediavelmente na direção do perigo. Foi pensando nisso que, de repente, lembrei que ainda deviam estar comigo as coisas que ele tinha deixado na embaixada de Pequim antes de voltar para Xangai e retomar as funções de vice-cônsul, não por muito tempo.»


Bernardo nasceu no Rio de Janeiro, em 1960 e vive em São Paulo. Foi correspondente da Folha de São Paulo em Paris e Nova York e escreve actualmente para o mesmo jornal. Outros livros de Bernardo Carvalho: Aberração, Onze, Os Bêbados e os Sonâmbulos, Teatro, As Iniciais, Nove Noites.

Jabuti

Os Prémios Jabuti de 2004 foram hoje entregues, em São Paulo, no Memorial da América Latina (e ontem, no Rio, foi entregue o Camões, a Agustina Bessa-Luís). Destaque para Bernardo Carvalho, Mongólia (categoria Romance, edição portuguesa Cotovia); Sérgio Sant'anna, O Vôo da Madrugada (categoria Contos, edição portuguesa Cotovia), Alexei Bueno, Poesia Reunida (categoria Poesia), Caco Barcellos, Abusado (categoria Reportagem e Biografia).
No caso da ficção, Bernardo Carvalho repete o Jabuti -- na lista estiveram nomes como Luiz Antônio Assis Brasil (A Margem Imóvel do Rio), Chico Buarque (Budapeste), que ficaram, respectivamente, em segundo e em terceiro lugar.

Fernando Pessoa

O Estado de São Paulo (link não disponível) anuncia que «2007 será o Ano Fernando Pessoa no Brasil». Colaboração (em São Paulo) entre a Casa Fernando Pessoa, a PUC, a Casa do Saber e a SESC.

Vaidade lusitana... (corando)

O Gávea esteve durante dois dias no primeiro lugar do TopLinks brasileiro. Ah, vaidade, vaidade, tudo é vaidade...

Lêdo Ivo

Não quero achar o que os outros perderam:
as moedas no chão, os guarda-chuvas
esquecidos nos ônibus, e a vida
deixada por engano sobre o asfalto.
Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria
em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não irrompesse
com suas sombras e cigarras e cascatas.
Quero, sonho e adiro o inédito
como a noite no caracol de uma escada
contudo perto das constelações se eu pudesse vê-las de outro planeta.
[...]
Lêdo Ivo


Lêdo Ivo nasceu em Maceió, estado de Alagoas, em 1924. Jornalista, poeta, romancista e ensaísta. Alguns livros: O Caminho sem Aventura, romance (1948); Poesia Observada, ensaios (1967); Finisterra, poesia (1972); Modernismo e Modernidade, ensaio (1972); O Sinal Semafórico, obra poética até 1974; Teoria e Celebração, ensaio (1976); Confissões de um Poeta, autobiografia (1979); A Ética da Aventura, ensaio (1982) A Noite Misteriosa, poesia (1982); A Morte do Brasil, romance (1984); Calabar, poesia (1985); Crepúsculo Civil, poesia (1990).

Mais curiosidades

Já agora, não resisto eu próprio a citar o FalaLíngua e as suas curiosidades:
«Aos dezessete anos, Carlos Drummond de Andrade foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), depois de um desentendimento com o professor de português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos. "Se não fizer isso, saio matando gente pela rua". Estraçalhou uma camisa nova em folha do neto. "Experimentei, ficou apertada, achei que tinha comprado o número errado. Mas não se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha."»

«Érico Veríssimo era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.»

«Jorge Amado para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. "Por quê?", perguntavam os jornalistas, Jorge respondeu: "O motivo é simples: nós somos amantes." Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal disse: "Muito prazer, encantado." Era piada. Os dois nem se conheciam até então.»

«Clarice Lispector era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.»

Gabinete de curiosidades

Citado pelo Rui Tavares de uma das secções mais visitadas do FalaLíngua; vale a pena:
«Numa das viagens a Portugal, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o "furo": Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.»

«Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: "O senhor gosta de Camões?" Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos.»

Obrigado ao Rui Tavares.

Setembro 9, 2004

Ivan, a Praia, a Gávea


Ivan Nunes, no A Praia:
«Há esta coisa que me faz muita espécie: temos uma língua que, por via de acidentes históricos, é falada por um número incrivelmente maior de pessoas do que aquelas a que a nossa dimensão enquanto país em princípio nos condenaria; e, ainda assim, damo-nos ao luxo de não querer saber do que se faz e escreve em português, de torcer o nariz face ao "sotaque" da escrita brasileira, etc. É como se persistíssemos em querer ser apenas dez milhões, em querer saber apenas do que fazem dez milhões, quando teríamos um acesso muito fácil ao que fazem outros duzentos milhões com a mesma língua. É claro que, inversamente, para mim é também penoso o desconhecimento que os brasileiros em geral têm do que possa ser Portugal hoje, para além do nível da anedota sobre o Joaquim da Padaria. É penoso, sim - não têm a menor ideia, são arrogantes e não querem saber; mas eles sempre têm os números a seu favor.
Nós, pelo nosso lado, temos uma espécie de desdém primeiro-mundista (olha quem) mal assumido, que nos permite olhar para o Brasil e para os brasileiros achando que eles "falam mal", que são atrasados e preguiçosos.»

Relatos de Lagutrop

David Arrobas, no Relatos de Lagutrop:
«Saudade do presidente Figueiredo. Nem só de futebol, praia e bunda é feito o Brasil. Qualquer pessoa atenta sabe isso. Até considera a afirmação uma banalidade. Mas Portugal é pródigo em pessoas desatentas. Em turistas encantados com a natureza, as putas e os preços baixos do Brasil. E broncos em relação ao resto. Broncos e muitas vezes decorados com uma disparatada arrogância cultural. Delambida. Puro complexo de colonizador.»

Nassar

A propósito do extracto-homenagem de ontem, Eugênia Fortes chama a atenção para o conto «Hoje de Madrugada», de Raduan Nassar, fotografado do original, nos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles. Pode ser lido aqui.

Guimarães Rosa

Paulo Bicarato sobre Guimarães Rosa na Novae, evocando Maio de 1952: Guimarães Rosa começava a viagem que resultou em Grande Sertão: Veredas. Nonada, o neologismo hermético que inicia a fala de Riobaldo Tatarana ao baldear o “Gaiola” rumo ao norte, rumo ao “desejo de Deus”, Diadorim, entraria de vez para o léxico português.

Setembro 8, 2004

Sérgio Augusto


Sérgio Augusto é bem conhecido dos cinéfilos: fez crítica em quase tudo o que é jornal e revista brasileira (do JB à Veja, do Estadão à Bundas -- e é autor de um livro notável sobre a chanchada brasileira (Este Mundo é um Pandeiro: Chanchada de Getúlio a JK), o filme série bem lá abaixo. Há dois anos, a Record publicou uma reunião das suas crónicas (com prefácio de Luis Fernando Verissimo) com o título Lado B. Agora, publica um livro sobre o Botafogo, o time carioca de futebol: Botafogo — Entre o Céu e o Inferno (edição Ediouro). Dada a situação do Botafogo no campeonato brasileiro, trata-se mesmo de inferno...
Na mesma colecção, a Camisa 13, está já publicado o livro de Ruy Castro sobre o Flamengo: Vermelho e o Negro. Pequena Grande História do Flamengo o que é notável: rubro-negro como é, Ruy Castro escreveu a biografia de Nelson Rodrigues, um tricolor (Fluminense), e de Garrincha, justamente, um alvinegro (Botafogo).

Gregório de Mattos, mais canónico


«Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.»

Gregório de Mattos ou o turismo em Itaparica nos séculos de ouro, com perdão antecipado

«Ilha de Itaparica, alvas areias,/ Alegres praias, frescas, deleitosas;/ Ricos polvos, lagostas deliciosas,/ Farta de putas, rica de baleias.// As putas tais, ou quais não são más preias,/ Pícaras,ledas, brandas, carinhosas,/ Para o jantar as carnes saborosas,/ O pescado excelente para as ceias.[…]»
Gregório de Mattos e Guerra, que viria a ser conhecido como “o Boca do Inferno”, nasceu em Salvador, na Bahia, a 23 de Dezembro de 1636. Depois de ter vivido em Portugal, representando a Bahia nas Cortes, e de ter cumprido funções eclesiásticas, regressa a Salvador para tmar ordens na diocese. Impedido, explora a sua dimensão de «poeta satírico», mas também lírico, pornográfico, violento. Perseguido, odiado e amado, foi desterrado para Angola. Morre no Recife em 1695, de uma febre contraída na África, com 59 anos, no dia 26 de Novembro.

L.A. Assis Brasil


«Vieram na segunda classe, no mesmo navio que reconduzia para cá D. Pedro II depois de uma visita à Europa. Ela enxergara o Imperador tomando sol no convés mais alto. Abanou-lhe. Foi retribuída. Desde então o Monarca passara a ser apenas um homem como os outros.
– D. Pedro é um homem como os outros – ela um dia disse ao Historiador, provocando-lhe uma reação de espantada incredulidade. Ele nunca pensara nisso. O fascínio imperial estava muito acima dessas contingências humanas.
A primeira coisa do Brasil a chamar a atenção de Cecília foi a selva. Em Portugal a natureza fora domada havia séculos. Aqui, a selva, plena de vapores, crescia por tudo, recobrindo as montanhas do Rio de Janeiro e entranhando-se no caráter das pessoas. A selva possuía algo de misterioso, como um coração.» [Luiz Antônio de Assis Brasil, A Margem Imóvel do Rio, LP&M Editores, 2003.]
Luiz Antônio de Assis Brasil nasceu em Porto Alegre, onde vive, em 1954. É professor universitário e já escreveu um livro de ensaios sobre literatura dos Açores. Entre os seus livros contam-se O Homem Amoroso, Breviário das Terras do Brasil, O Pintor de Retratos (publicado em Portugal) e A Margem Imóvel do Rio, que foi finalista do Prémio Jabuti e é também do Portugal Telecom Brasil.

No mínimo, conversarmos

Agradecimentos ao Pedro Dória, do No Mínimo. E uma pequena resposta às tuas interrogações. Caro Pedro: esse tema (o da «importância da literatura portuguesa», em comparação com a literatura brasileira) daria um blog inteiro. As razões por que uma turma de portugueses cria um endereço na web para falar de literatura brasileira podem ir sendo conhecidas aos poucos e são já uma resposta a essa inquietação. A ignorância, de um e de outro lado do Atlântico, sobre o que se faz na outra margem, é um dos absurdos da nossa vida. Temos de viver com ele.
Muitos portugueses precisavam de uma terapia de choque nesse sentido. Eu tive a minha quando frequentei Literatura Brasileira na universidade. Íamos cheios de Jorge Amado, Graciliano e pouco mais, mas isso garantia uma série de certezas absolutas – Érico Veríssimo estava um pouco deslocado no retrato, era leitura de família. Mas Guimarães Rosa era um mundo longínquo que falava outra língua, Machado uma espécie de subproduto desconhecido (que Eça satirizava em privado, rindo do mulato), os modernos escreviam numa gramática terrível, cheia de sons e de atropelos. Manuel Bandeira, por tradição, conhecíamos, sim, e Vinicius, pelas canções, e Drummond, porque sim. Não vale a pena enumerar as desgraças. O meu professor era o poeta (angolano) Mário António Oliveira. As suas primeiras palavras foram simples: «Lamento desiludi-los, mas a literatura brasileira é muito superior à portuguesa.» Um eco de indignação percorreu a sala. Ele ria. Abençoado riso. Semanas depois percebíamos a provocação. Eu tinha percebido a provocação com Gregório de Mattos (o homem falava de Itaparica e, junto com as águas azuis e transparentes da ilha, falava das putas e dos álcoois), por exemplo, ainda que aceitasse com dificuldade, nesses anos, dividir Tomaz Gonzaga ou Cláudio Manuel da Costa com Ouro Preto (a Inconfidência, aliás, era um pormenor na leitura dos autores brasileiros), e encontrar consonâncias em Castro Alves ou Olavo Bilac (ah, a última flor do Lácio…). Se Capitú traiu ou não, sempre me pareceu assunto secundário, desde que Brás Cubas continuasse a perorar além-túmulo. E, depois, que brincadeira era essa de haver um leitor brasileiro de Sterne? Preconceito sincero. Quando Antônio Cândido teve o Premio Camões, houve mesmo um professor de uma universidade de Lisboa (e de literatura, e de esquerda, e que participava em jornadas de apoio ao PT…) que desabafou para os jornais: «É essa mania de premiarem os desconhecidos…» Coitado do Antônio Cândido. Vocês também não se portavam muito melhor, é preciso dizer. Quanto ao preconceito, nessas aulas de literatura, desapareceu com o tempo e com uma dose de ciúmes assombrosa, quando se descobriu que Oswald de Andrade tinha seduzido Isadora Duncan daquela maneira gloriosa, como um canibal de verdade. Eça riu dos paulistas que se atiraram aos pés de Sarah Bernhard, mas a verdade é que os autores portugueses não tiveram grandes momentos de exuberância, pequeninos e confinados a um mundo de fronteiras curtas. Isto também tem os seus exageros, mas a culpa também é vossa. Não sei porquê. Deve ser dessa mania de implicarem com os portugas, não sei; e de os portugueses fingirem que são tão sérios que ainda não aprenderam a brincar. Temos de viver com isso.

Links

O Gávea começa a mexer. Obrigado aos visitantes e aos que se referiram ao blog. A ideia não é a de competir por um lugar no top, mas apenas a de deixar disponível alguma informação sobre o que nos interessa da literatura brasileira – e de outras matérias que virão com o tempo. Agradecemos aos leitores do Gávea, por isso, a indicação de links que possam ser disponibilizados para quem quer conhecer mais dos livros brasileiros de hoje – e da literatura brasileira de qualquer idade. O Gávea não tem estatuto editorial nem carta de princípios – nem lamechices – e está disponível para receber essa colaboração.

Diogo Mainardi


«Em 1741, o herege português Pedro De Rates Henequim baseou-se nas Escrituras para afirmar que o Brasil era o autêntico paraíso terrestre, o Éden, o jardim das delícias. O nome Adão, em hebraico, significa “vermelho”. Entendeu? De acordo com Pedro de Rates Henequim, Adão pertencia à raça vermelha, sendo um antepassado dos nossos indígenas. O Livro dos Cânticos “é todo profecia do Brasil”, como atesta a referência à bebida de milho pisada fabricada por nossos selvagens. […] Pedro de Rates Henequim incorreu também em inúmeros desvarios geográficos, afirmando que o Brasil só sobreviveu ao Dilúvio Universal porque “é uma ilha que se gira em rodas sobre o mar”. Felizmente, foi capturado pelo tribunal da Inquisição, que teve o bom senso de condená-lo à pena de estrangulamento pelo garrote, como a ordem suplementar de queimar todos os seus restos, “de sorte que nem delle nem de sua sepultura possa haver memoria alguma”.» [Diogo Mainardi, Contra o Brasil. Companhia das Letras, 1998.]

Diogo Mainardi nasceu em 1962. Viveu durante alguns anos na Europa (Inglaterra e Itália), é colunista semanal da Veja e participa no programa Manhattan Connection, do canal de cabo GNT. Publicou vários livros: Malthus, Arquipélago, Polígono das Secas e Contra o Brasil, todos na Companhia das Letras.

Mais livrarias

Foram adicionadas mais duas livrarias para serem frequentadas online: a Cultura e a Livraria da Vila. Referências de São Paulo.
Nota muito pessoal infelizmente, para quem vive fora do Brasil, a Ornabi não tem site – trata-se de um dos sebos (alfarrabistas) históricos da cidade. O fundador, um português, recolheu aqui algumas centenas de milhar de títulos. Para quem vive no Brasil, aconselha-se uma visita.

Setembro 7, 2004

Biblioteca no Metro

Da Folha de São Paulo (link não disponível):
«Inaugurada na quarta-feira, na estação Paraíso, a biblioteca "Embarque na Leitura" é a primeira no país a ser instalada em uma estação metroviária.
O acervo inicial possui 4.000 volumes de gêneros diversos: literatura nacional e estrangeira, livros infanto-juvenis, além de áreas temáticas como sociologia, artes e filosofia. Há também uma Bíblia em braile. O projeto é realizado pelo Instituto Brasil Leitor em parceria com a Secretaria dos Transportes Metropolitanos e com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura. Duas empresas privadas cobrem o custo total do empreendimento.
Para se cadastrar, os usuários precisam apresentar documento de identidade, comprovante de residência e uma foto 3x4. Menores de 12 anos devem ir acompanhados dos pais. Cada pessoa pode pegar um livro por vez e tem direito a ficar com ele por dez dias.
Além da biblioteca, está prevista a realização de conversas com escritores e contadores de histórias e tardes de autógrafos. A proposta é criar mais nove bibliotecas no metrô de São Paulo, mas não há previsão de quando isso será feito.»

João Gilberto Noll


É uma pena que João Gilberto Noll ainda não esteja publicado em Portugal. Acaba de ser publicado Lorde (edição W11/Francis). Os livros de Noll são curtos, sombrios como as águas do sul.
João Gilberto Noll nasceu em Porto Alegre, em 1946; foi jornalista e colaborador de muitos jornais e revistas, ensinou em universidades americanas e brasileiras. Outros livros a ler: Bandoleiros, Hotel Atlântico, Harmada, A Céu Aberto, Canoas e Marolas, Berkeley em Bellagio, por exemplo.

Chico Buarque. Entrevista

«Li um romance do Pirandello, a quem só conhecia como autor de teatro. Tenho lido bastante, existe um autor novo que gosto muito, o João Paulo Cuenca. E um português chamado Mário de Carvalho, muito bom. A minha leitura é muito indisciplinada. Vou lendo o que cai na minha mão, passo às vezes algum tempo sem escrever nada. Quando estou escrevendo, não leio. Mas, mais uma vez, essa leitura recente dificilmente vai mexer com a minha formação literária.»
Entrevista de Chico Buarque à BBC/Brasil, via Folha de São Paulo.

Raduan Nassar



«Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.» [De Menina a Caminho, 1997.]
Raduan Nassar nasceu em Novembro de 1935 numa família de origem libanesa. Além de Menina a Caminho, os outros livros de Raduan Nassar, publicados pela Companhia das Letras: Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera. Publicados em Portugal pela Relógio d'Água.

Tom Jobim para Vinicius de Moraes, via Maira Parula

Ainda do Prosa Caótica, uma carta de Tom Jobim a Vinicius de Moraes, de 1965:
«Morro de saudades. Acordo de madrugada e fico vagando pela casa, tomando café e fumando com aquele sentimento esquisito de lack of rabanadas. Recebi tua carta hoje de manhã, agora mesmo, às nove horas, e faz um dia lindo. Aquele frio lá fora, o céu azul transparente mostra que a poluição diminuiu bastante... Para mim seis degraus centígrados é frio à beça. Corro para dentro e ligo o heat na toda, no clima supertropical de Ipanamo. Mas o ar fica seco, racha-violão. Só mesmo no banheiro, com o chuveiro quente ligado, nu, de camisa de meia, na umidade das nuvens de vapor quente, fazendo uma infinita barba, com aparelho, pincel e muita espuma e respuma, gilete nova, desligado, num mundo sem problemas, só fico assim mais como Ipanerma, Ipanoma, Ipaderma, Ipanonha, Aipinina, Ipatonha... Ipanhonha?»

Blogs 3

O blog Prosa Caótica mantém há bastante tempo uma relação cordial com a literatura e os seus autores-obsessão. Assinado por Maira Parula, é uma das referências a ler com frequência. Há dias, publicou uma pequena homenagem a Jorge Luis Borges, «A Biblioteca de Bebel»:
«Se eu digo que nos galhos de um cedro do Líbano costumavam se aninhar todas as aves dos céus. Que à sua sombra se acolhiam todos os animais dos campos e descansava toda a espécie de gente. Se eu digo que meus ouvidos mortais não foram preparados para o som de cânticos, das harpas, das liras e dos címbalos. Que, antes disso, as ruas abertas de minha infância transformaram em mármore as tardes que hoje busco na memória. Se eu digo que minha raça, classe e sexo são definitivamente a garatuja de tudo aquilo que sou. Que tudo aquilo que sou poderia muito bem acomodar-se no espaço entre uma vírgula e um ponto num rodapé desnecessário. Que não tenho a pretensão das páginas elegantes para pendurar minhas reflexões rudimentares de minha vidinha rudimentar, muito menos quinhentos séculos de dúvidas. Se eu ainda assim digo que não acredito num livro total porque sempre desconfiei dos místicos e do seu Deus circular de lombada contínua, é porque, depois de tudo o que acabei de dizer ou que me disseram, o meu universo não é uma biblioteca, ou porque qualquer coisa que eu venha a dizer ou escrever não passam de letras soltas de uma história inteira de que quase nem lembro.»

Portugal Telecom Brasil

O prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira 2004 será anunciado no dia 9 de novembro, em São Paulo e arrisca-se a ser considerado um dos prémios de referência para a edição brasileira. Entre os finalistas estão Mongólia, de Bernardo Carvalho, Céu de Lona, de Décio Pignatari, Budapeste, de Chico Buarque, Memórias Inventadas: A Infância, de Manoel de Barros, Macau, de Paulo Henrique Brito, O Vôo da Madrugada, de Sérgio Sant'Anna, A margem Imóvel do Rio, de Luis Antônio de Assis Brasil ou Geografia Íntima do Deserto, de Micheliny Verunschk. Estão publicados em Portugal os livros de Bernardo Carvalho (Cotovia), Chico Buarque (Dom Quixote) e Sérgio Sant'anna (Cotovia).

Romance brasileiro


Marisa Lajolo é professora de Teoria Literária na Unicamp, e trabalhou na Brown, onde aliás existe um bom departamento de literaturas românicas e hispânicas. A Objetiva lançou Como e Por Que Ler o Romance Brasileiro, numa colecção inspirada pelo título de Harold Bloom, e na qual já foram publicados os títulos Como e por que Ler os Clássicos Universais desde Cedo, de Ana Maria Machado, e Como e por que ler a Poesia Brasileira do Século XX, de Ítalo Moriconi. Pode ser uma interessante introdução ao tema.

Imprensa, mais asneira

A questão da «liberdade de imprensa» tinha de dar nisto.

Acordo ortográfico

De resto, Sérgio Rodrigues já tinha escrito sobre o «acordo ortográfico» antes; é um assunto a acompanhar. No Brasil, a imprensa raramente fala dele; em Portugal, há um certo ar escandalizado por boa parte dos colunistas, que temem perder a língua. Ora, só se perde o que não se usa, salvo erro.

Preconceito linguístico, preconceito lingüístico

Sérgio Rodrigues escreve sobre o assunto, e merece atenção:
«A idéia de “preconceito lingüístico”, popularizada pelo lingüista Marcos Bagno, da UnB, é de longe a mais pop criada pela moderna lingüística brasileira. Prestando atenção, vamos flagrar a patrulha espontânea do “preconceito lingüístico” em plena ação aqui e ali, em grupos de discussão na internet ou no bar, reagindo a qualquer reparo crítico que tenha a língua por alvo. Para ficar num exemplo só: outro dia, numa comunidade online dessas que estão na moda, um cidadão de Portugal se assustou com a expressão “linha do tempo” que um brasileiro usara. Propôs sua substituição por “cronologia” e a chamou de “brasileirismo horroroso”. Reação – compreensível – do nosso conterrâneo: “Olha o preconceito lingüístico aí!”.»

Posta restante

Obrigado Rui F. Santos, que escreveu por email: «Como sabe bem Nelson, Clarice e Luis Fernando em poucas linhas, assim bem arrumadinhos, jeitosos e arejados. Na estupidez e horror vulgar dos dias, temos que nos agarrar a estas pequenas miragens de salvação. [...] Ver Nelson a acender o cigarro e Clarice a espreitar assim a modos de que lhe está a fugir o infinito é a garantia de uma noite de domingo mais prazenteira.»

Realidade e Ficção

Amaury Veras, 53 anos, estilista (moda) foi encontrado morto na sua casa do Arpoador, pendurado por uma écharpe na porta do seu quarto. O caso tem agitado, sobretudo aquele tipo de gente que gosta de dizer «griffe» e de mencionar o termo «ícones» (uma das melhores frases foi a da actriz Ingrid Guimarães: «O fato não condiz com a pessoa. Ele era zen, não acredito que possa ter se matado.» O blog Farsantes toca num ponto essencial, para lá da vida e da morte: «Rubem Fonseca deve estar se roendo.» Um crime assim não é de todos os dias, um estilista pendurado por uma écharpe.

Agosto 19, 2004

Verissimo sobre as meias de Zuenir

Luis Fernando Verissimo escreve esta semana sobre o projecto do governo PT/Lula em redor da disciplina sobre a imprensa (lê-se no Estadão e no O Globo) -- ver o post anterior «Imprensa»:
«Não acho totalmente ruins esses projetos para disciplinar jornalistas. Gostei principalmente da idéia de definir critérios para os trajes a serem usados no exercício da profissão. Poucas coisas afetam o funcionamento de uma redação como o comprimento das saias usadas por certas jornalistas, por exemplo. Esta é uma área em que algum tipo de padronização é obviamente necessária. Caberia ao Conselho, ou à Ordem, ou ao que quer que seja que vá nos disciplinar, estabelecer limites máximos e mínimos para as saias desde que ficasse claro não haver qualquer intenção de controlar o conteúdo. Não imagino como seria um traje adequado para cronistas. Talvez algo na linha do blazer azul, camisa aberta ao peito em tom pastel, calças cinzas e sapatos tipo mocassim. Algo, enfim, para distingui-los das categorias inferiores. Para as moças, blazers também, mas com um cachecol cuja cor variaria de acordo com o assunto de que tratam (rosa shocking para a política, verde debênture para a economia, etc.). A regulamentação dos trajes para cronistas enfrentaria alguns problemas práticos na aplicação, como o que fazer com as meias coloridas do Zuenir. Proibi-las simplesmente seria um inaceitável cerceamento da liberdade de expressão dos pés do cronista. Tornar o uso de meias coloridas iguais às do Zuenir obrigatório para todos os cronistas só aumentaria os protestos contra a escalada do autoritarismo tipo soviético neste governo. Hoje só meias como as do Zuenir para todos, amanhã só o Pravda. A solução seria um dispositivo especial da nova lei que isentasse as meias do Zuenir do artigo que trata das nossas vestes. O que se esperaria dos responsáveis pelos projetos para disciplinar jornalistas é que tivessem a sensibilidade e o bom senso de rever este item. Pelo menos este.»

E se está errado?

Teríamos errado ao escrever «site de portugueses» em vez de «sítio de portugueses»? Ó Flor do Lácio, problema tão sem solução...

Agosto 18, 2004

Gonçalves de Magalhães e a poesia


«Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação, tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido dada por mãos avaras e pobres; contudo boa ou má dele herdou, e o confessamos, a literatura e a poesia, que chegadas a este terreno americano não perderam o seu caráter europeu. Com a poesia vieram todos os deuses do paganismo; espalharam-se pelo Brasil, e dos céus, e das florestas, e dos rios se apoderaram. A poesia brasileira não é uma indígena civilizada; é uma grega vestida à francesa e à portuguesa, e climatizada no Brasil; é uma virgem do Hélicon que, peregrinando pelo mundo, estragou seu manto, talhado pelas mãos de Homero, e sentada à sombra das palmeiras da América, se apraz ainda com as reminiscências da pátria, cuida ouvir o doce murmúrio da castanha, o trépido sussurro do London e do Ismeno, e toma por um rouxinol o sabiá que gorjeia entre os galhos da laranjeira.»
Domingos Gonçalves de Magalhães, Suspiros Poéticos e Saudades.

[Gonçalves de Magalhães (Domingos José Gonçalves de Magalhães, Visconde de Araguaia), médico, diplomata, poeta e dramaturgo, nasceu no Rio de Janeiro a 13 de agosto de 1811, e faleceu em Roma a 10 de junho de 1882.]

Blogs 2


Para leitores de Clarice Lispector, vale a pena uma visita ao Perto do Coração Selvagem. Gui Lamenha, que vive em São Paulo, fez o seu blog em homenagem à escritora.

Dapieve


Estejam atentos a Arthur Dapieve, que acaba de publicar De cada Amor tu Herdarás só o Cinismo (edição Objetiva), romance. Dapieve escreve no O Globo, no No Mínimo e aparece no GNT/Brasil. Este é um dos seus mais recentes textos de opinião.

Bethencourt e a magia


O historiador português Francisco Bethencourt terá mais um livro seu publicado no Brasil: trata-se de O Imaginário da Magia, edição da Companhia das Letras.

Murilo

«Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia,
um olho andando, com duas pernas.»


Murilo Mendes

Blogs 1

Karim Blair, aliás Mécia Rodrigues, escreve fragmentos de um romance inacabado no seu blog, O Caderno Lilás:
«Estados Unidos do Brazil, 100 réis, Correios, 1905. Os atracadouros, os veleiros fundeados, os trapiches, o céu amarelo de Benedito Calixto. O beijo. O beijo no barulho do bar. O beijo que foi um roçar de cílios e superfícies, a pele do meu rosto sobre a pele do rosto dele, assim : as capitanias hereditárias, os esconderijos arqueológicos, o destino dos nossos olhos, a estação das barcas.»

Rubem e o Kama Sutra

Rubem Fonseca conta a sua breve história de prefaciador: «A história da pornografia tem sido muito estudada e existem atualmente muitos livros e tratados que abordam o assunto de maneira ampla e inteligente. O texto, aqui requentado, da minha apresentação daquele moderno manual de práticas sexuais – a autora tinha a pretensão de orientar e conquistar principalmente o público feminino – não possuía o estilo adequado a uma publicação dirigida a leitores concupiscentes. Creio que aqueles que se aventuraram a lê-lo (sabemos que prefácios não costumam ser lidos) provavelmente desistiram de comprar o livro. E a minha carreira de prefaciador terminou ali.» Vem no Portal Literal.

Blogs e efemeridade


Veja-se esta edição que evoca a efemeridade dos blogs, como diz Luís Augusto Fischer, na Bravo!.

Imprensa

Em discussão o projecto da criação do Conselho Federal de Jornalismo; não deixa de ser um propósito censório e petista. Se se esperavam algumas críticas, agora é Cristovam Buarque que também contesta a ideia: a censura não vem toda ao mesmo tempo. Veja-se também este texto de Guilherme Fiúza, no No Mínimo; e este de Hélio Schwartsman, no Folha de São Paulo.

A última flor do Lácio, again

No No Mínimo, Sérgio Rodrigues discute as novas formas verbais: ficcionar, ficcionalizar, xerocar, teclar, clicar, etc. «Quando foi exatamente que ficou "consensuada" entre nós – como deram de dizer certos professores universitários e até o Lula – toda essa criatividade verbal?» Mas avisa: «Atenção, não sou reaça.»

Garcia-Roza manda Espinosa descansar


O novo livro de Garcia-Roza não terá o delegado Espinosa como protagonista. Não tem título, ainda, mas é uma traição aos admiradores do mais famoso polícia carioca de Copacabana. Os livros de Garcia-Roza são publicados em Portugal pela Gótica, no Brasil pela Companhia das Letras.

Ruy Castro & Carmen Miranda

Justamente Ruy Castro, o autor das biografias de Nelson Rodrigues e de Garrincha (Estrela Solitária): a próxima biografia é dedicada a Carmen Miranda e sairá na Companhia das Letras durante o próximo ano. Ainda não tem título definitivo – mas Ruy Castro esteve em Marco de Canaveses, a terra-natal de Cármen Miranda. O mais recente livro de Ruy Castro é Amestrando Orgasmos (edição da Objetiva) mas o mais citado é ainda Carnaval no Fogo. Crônica de uma Cidade Excitante Demais, uma história do Rio de Janeiro – e de Copacabana, mais exactamente (Companhia das Letras), que foi um dos finalistas do Jabuti. Um extracto de Carnaval no Fogo: «Se Vespúcio voltasse hoje à cidade, quinhentos anos depois, como seria? Em 1502, ao defrontar-se com o Pão de Açúcar, ele vira na Guanabara algo muito parecido com a ideia que os antigos faziam do Paraíso: um carnaval de montanhas, serras, praias, enseadas, ilhas, dunas, restingas, manguezais, lagoas e florestas, tudo sob um céu que não tinha fim. Uma obra-prima da natureza, habitada por uma gente feliz, bronzeada e amoral. […] Uma vida tão feliz e paradisíaca que deixava muito mal a ideia, então corrente entre os jesuítas, de que os selvagens não tinham alma.» Ruy Castro viveu alguns anos em Portugal e já dedicou ao Rio alguns dos seus livros, como Ela é Carioca, Uma Enciclopédia de Ipanema. Eu acho que o romance sobre Bilac, Bilac vê Estrelas, também é sobre o Rio, claro.

Agosto 17, 2004

Nelson para fanáticos

Depois do trabalho memorável de Ruy Castro sobre a obra do dramaturgo (desde a monumental biografia, Flor de Obsessão, até à edição da série de livros perdidos ou esquecidos), a Companhia das Letras acaba de lançar O Baú de Nelson Rodrigues, reunião de crónicas publicadas entre 1928 e 1935, período em que Nelson trabalhou nos jornais A Manhã, Crítica e O Globo. O trabalho de edição é de Caco Coelho. O Baú de Nelson Rodrigues recolhe dois tipos de texto: crónicas literárias de um lado, histórias de polícia do outro. 308 páginas para coleccionadores.

Início em breve

O Gávea Blog será um site dedicado à literatura brasileira, mantido por dois portugueses que gostam, intermitentemente, do Brasil ou da literatura do Brasil.