João Gilberto Noll
Entrevista com João Gilberto Noll, em Porto Alegre. Som do programa Escrita em Dia, na Antena Um, Lisboa.
Um blog português sobre livros & literatura brasileira.
Entrevista com João Gilberto Noll, em Porto Alegre. Som do programa Escrita em Dia, na Antena Um, Lisboa.
Entrevista de Antônio Cícero no site da Record, a propósito de A Cidade e Os Livros (edição portuguesa na Quási). Cícero esteve recentemente em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa.




Já passei por caminhos de amor e sexo, mas não sei a resposta; tudo fica difuso quando tento me lembrar dos grandes momentos de êxtase. O prazer se esvai na memória. Já amei mulheres, só depois que as perdi. Já odiei ser amado, já amei por narcisismo. Quantos “amam” para humilhar o outro com seu “imenso” amor? Quantos “amam” por egoísmo? Nos anos 70, amor e sexo passaram por uma revolução meio confusa. As paixões eram súbitas, e as separações, sem aviso.
Sumira do amor o desejo de eternidade, havia um sexo experimental no ar que almejava o “desregramento de todos os sentidos”, em busca de um nível mais alto de consciência. Eram caretas a possessividade, a fidelidade. Os casamentos e namoros firmes perderam o rumo, pois nos faltavam as regras da tradição. No entanto, as emoções fundamentais estavam ali, disfarçadas, mas presentes: posse, ciúme, medo. O que faz o amor tão inquietante é o medo da rejeição, da perda do objeto ou, mais simplesmente, da dor-de-corno. Eu já sofri monumentais dores-de-corno, e elas me ensinaram muito. Acho mesmo que o homem só vira homem quando recebe chifres didáticos. Só aí o macho onipotente conhece o desespero da condição humana. A dor-de-corno é física, é uma experiência de morte.
Conferir aqui a lista dos livros mais vendidos em São Paulo, na Livraria Cultura.
Mário de Carvalho, Alberto da Costa e Silva, Benjamin Zephaniah, Ali Smith, José Miguel Wisnik, Lillian Ross, Philip Gourevitch, Toni Morrison, André Sant'Anna, Reinaldo Moraes, Christopher Hitchens, Fernando Gabeira, Edmund White e Nicole Krauss participaram da FLIP 2006, que aconteceu de 9 a 13 de agosto, em Parati, Rio de Janeiro. Acompanhe a programação e o dia-a-dia do evento pelo site do Festival de Parati.






A expressão «Rio Atlântico» foi criada por Onésimo Teotónio de Almeida, num dos seus livros -- e é um debate que regressa de vez em quando ao Gávea. Desta vez, Alex Castro, do blog Liberal, Libertário, Libertino, escreve sobre o assunto a propósito das suas leituras de Lobo Antunes:
«Não adianta se enganar achando que brasileiros e portugueses falam a mesma língua.
Meu pai teve empresa em Portugal e eu passei algumas férias lá, andando com os filhos dos seus sócios por Estoril e Cascais, curtindo a vida de adolescente lisboeta da década de 80. Minhas primeiras leituras foram os pocket-books de terror e mistério da Livros do Brasil e Europa-América, aventuras giras nas quais chuís se envolviam com sensuais raparigas e acabavam se metendo em muitos sarilhos. Depois, viciado pelos grandes descobrimentos, li As Décadas de João Barros e várias outras narrativas de navegadores, escritas em português da época.
Meu conhecimento de lusitano, imagino, deve ser acima da média de um brasileiro comum.
Apesar disso, tenho mais dificuldade de entender a RTP do que a BBC ou a Telemundo. Tentei decifrar o famoso blog português Meu Pipi e simplesmente não consegui.
Nas últimas duas semanas, li quatro livros de António Lobo Antunes - e estou começando o quinto. No total, foram mais de 1.500 páginas de lusitano, em um estilo propositadamente complexo e algo hermético.
Confiem em mim, palavra de brasileiro que entende lusitano melhor que a média: portugueses e brasileiros já não falam a mesma língua faz tempo. Os editores de ambos os países que ignoram esse fato o fazem em detrimento dos leitores (que não entendem lhufas) e autores (cujas obras são mal-transmitidas).»
Ler mais aqui.



Adauto de Novaes organizou um livro para correr um risco incalculável, mas a experiência pode valer a pena: Poetas que Pensaram o Mundo (Companhia das Letras). Novaes adverte para o perigo, mas mesmo assim antologia textos de Shakespeare, Eliot, Rimbaud, Valéry ou Pessoa.

A lista dos livros mais vendidos de O Estado de São Paulo deste domingo já inclui o novo romance de José Saramago (As Intermitências da Morte, edição Companhia das Letras) em primeiro lugar. Na semana anterior estava em terceiro.
Sasha Cavalcante nos comentários do Gávea acerca deste post:
«Como brasileiro, não posso deixar de demonstrar a minha indignação perante determinada corrente de pensamento bastante difundida entre a classe média do meu país, a de uma pretensa língua “brasileira”, que infelizmente tem encontrado eco nas mentes mais xenófobas que habitam este universo virtual. No Orkut, nomeadamente, confesso que tenho abertamente criticado esta tese absurda que, felizmente, grassa em mentes menos esclarecidas.
Tenho o maior orgulho de ter sido colonizado por Portugal, enquanto cidadão, e a plena consciência de que falamos a mesma língua, certeza esta solidificada após 13 anos a trabalhar como jornalista em rádios e jornais do distrito de Santarém.
Não fossem os portugueses e o Brasil não seria o Brasil que conhecemos, o Brasil da bossa-nova, de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, e tantos outros artistas da nossa MPB. Não fossem os portugueses, não teríamos a oportunidade de ouvir a Amália Rodrigues cantar um fado de Vinícius nem o Caetano Veloso interpretar um tema da grande cantora portuguesa. Não teríamos Jorge Amado, Érico Verísssimo e tantos outros. Felizmente, a grande maioria do povo brasileiro e a totalidade da nossa inteligentsia tupiniquim não alinha com esta teoria ufanista, nada e criada nos círculos mais conservadores e reacionários. Eça de Queirós foi sempre o escritor estrangeiro mais lido no Brasil e, mais recentemente, José Saramago conquistou os brasileiros, assim como o grupo Madredeus vê o seu público aumentar. Miguel Sousa Tavares foi citado diversas vezes pela revista Veja, que elogiou o seu romance Equador, e ainda foi convidado do programa de Jô Soares, assim como o jornalista Carlos Fino, que recentemente passou por lá.
É fato que artistas e intelectuais dos dois lados do Atlântico tem mantido uma sólida relação de amizade que dura décadas. Vinícius visitava Amália nas suas idas a Portugal e percorria as tertúlias de Coimbra ciceroneado por Nicolau Breyner e José Niza. Quando Caetano Veloso viveu exilado em Londres no início dos anos 70, firmou amizade com Zeca Afonso, que gravava por lá os seus discos e tinha a presença assídua do baiano no estúdio. É, portanto, ridículo qualquer argumento que venha inventar uma língua brasileira ou até mesmo, o que me é difícil acreditar, que os livros de autores portugueses sejam boicotados no Brasil. Basta uma simples pesquisa pelo Google para perceber que a maioria dos sites na internet sobre Fernando Pessoa é mantido por brasileiros.
Eu sou um sebastianista, acredito na fatalidade que colocou vários povos a falar a mesma língua e que o nosso caminho é mais ou menos por aí, por uma afirmação da nossa língua enquanto identidade cultural, enriquecida pelas diversas variantes do nosso idioma. A chegada dos escritores portugueses será sempre bem vinda, assim como qualquer outra manifestação cultural.»
Eu sou um sebastianista, acredito na fatalidade que colocou vários povos a falar a mesma língua e que o nosso caminho é mais ou menos por aí, por uma afirmação da nossa língua enquanto identidade cultural, enriquecida pelas diversas variantes do nosso idioma. A chegada dos escritores portugueses será sempre bem vinda, assim como qualquer outra manifestação cultural.»
Sasha Cavalcante
Interessante o debate sobre o artigo de Sanches Neto que já motivou um artigo do Diário de Notícias, de Lisboa (2 páginas), além de uma crónica de Eduardo Prado Coelho no Público. Ver também o post de Eduardo Pitta no Da Literatura.
Acabou o blog da Bruna Surfistinha. Tanto escreveu que acabou por publicar um livro (O Doce Veneno do Escorpião. O Diário de uma Garota de Programa, edição Original). Adeus voyeurs.
A Carta Capital, uma boa revista brasileira que começou por ser apenas de economia, publicou um texto de Miguel Sanches Neto com queixinhas sobre os escritores portugueses, intrusos no Brasil, e com uma inabitual lengalenga sobre neo-colonialismo (que o governo português envia hordas de escritores para o Brasil) e nacional-proteccionismo (que o português do Brasil é melhor do que português europeu -- o que tem uma raiz verdadeira, mas dito assim...). Como este blog está à vontade em matéria brasileira e luso-brasileira, acho que o texto era medíocre, invejoso e senil. O embaixador português no Brasil, Francisco Seixas da Costa, achou que o assunto merecia um reparo. Está aqui a sua resposta, na íntegra. Boa diplomacia também é isto: responder quando alguém pergunta alguma coisa.
«No Brasil há menos de um ano, aprendi rápido que a abertura ao mundo constitui uma das matrizes deste país, fruto da sua permanente convivência descomplexada com a diferença. A brasilidade fez-se e firmou-se sobre todas as marcas e referências que aqui chegaram, usando-as e transformando-as num magma cultural original, com uma identidade fortíssima, que hoje não precisa de defesas artificiais para se afirmar.
Por tudo isso, foi com alguma surpresa que li o artigo de Miguel Sanches Neto, “Brasil recolonizado”, onde é feita uma aberta apologia do proteccionismo linguístico, do fechamento da fronteira cultural do Brasil à nova literatura portuguesa, tida por poluente veículo de uma estética convencional, apoiada numa norma escrita já decrépita, fechada à sacralização da oralidade. A crer no autor, urge afundar no horizonte, pela crítica profilática, as novas naus de letras que agora trazem por aí Inês Pedrosa, Sousa Tavares, Lídia Jorge, Lobo Antunes, Hélder Macedo, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Francisco José Viegas, Rui Zink e tantos e tantos outros, com o usurpador nobélico Saramago na proa. Por que não se deixa que sejam os leitores brasileiros a usar a sua maturidade para separar o trigo do joio, o que gostam ou não, sem necessitarem de filtros tutelares preventivos?
Faço a justiça de não colocar Sanches Neto nos cultores do despeito atávico pelo que vem da “terrinha”, coisa velha em algumas mentalidades residuais, onde o anti-portuguesismo – essa doença infantil da brasilidade – se mantém recorrente, espreitando pelas esquinas do preconceito, sobrevivendo em algumas vozes e penas, no desespero em tentar fazer do Brasil e de Portugal dois países separados por uma língua comum. Mas é bem triste ver adubada e ajudada essa mesma deriva por figuras da cultura, dando verniz ideológico e intelectual ao preconceito.
Deixo apenas uma nota mais.
Na minha juventude em Portugal, a ditadura não se atrevia a privar-nos de Amado, Guimarães Rosa ou Veríssimo, a afastar-nos da Pasárgada da esperança acenada por Bandeira, que nos ajudava a sonhar longe dos “mortos de sobrecasaca” que nos rondavam os dias. Se alguém hoje ousasse por lá dizer que Nélida Piñon, Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro ou o outro Veríssimo afectavam a estética literária caseira teria, como resposta, uma gargalhada do tamanho do Atlântico, ouvida no Além pela velhinha de Taubaté.
Francisco Seixas da Costa, Embaixador de Portugal no Brasil.»

Corpos celestes, ventanias, poeira,





O Diário de Notícias de hoje publica uma lista de livros candidatos ao Prémio Portugal Telecom. Trata-se, na verdade, de um conjunto de livros que podem vir a figurar na shortlist final, habitualmente com dez títulos.
1º - Vozes no Deserto
Leitores do Gávea querem um cheirinho do livro de Verissimo citado aí mais em baixo. O começo:



Um dos habituais comentadores do Gávea escreveu a propósito dos posts sobre tertúlias em Poerto Alegre e São Paulo, chamando a atenção para o Recife:



«O fígado faz muito mal à bebida.»

Para quem vem do mar, Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, inaugura o chamado território das missões. Erico Verissimo nasceu aí em 1905 e atravessou quase todo o nosso século XX. Estive duas vezes em Cruz Alta quando descia em busca da paisagem das missões – campos cruzados de rios, lagoas, neblinas, na direcção da Argentina e, mais ao norte, do Paraguai. É naquela parte do Brasil que se descobre com mais clareza que Camilo, bem como o nosso século XIX, tinham razão. Não se tratava de Brasil mas de Brasis.
E em São Paulo, recomendam-se as sessões do Bar Zé Batidão, no Jardim Guarujá (Rua Bartolomeu dos Santos, 797; telef. 11-5891-7403), às quartas-feiras, organizadas pela Cooperifa (Cooperativa da Periferia). Os seus debates e leituras já estão reunidos em livro publicado pelo Itaú Cultural.
Para quem estiver de viagem pelo Brasil nesta temporada, não perder as terças-feiras mais do que animadas no Bar Ocidente, em Porto Alegre, no bairro do Bom Fim, cenário de muitos livros de Moacyr Scliar e também dos chamados «movimentos culturais» da cidade mais europeia do Brasil, a capital gaúcha, além de registar a maior concentração de bares da América do Sul. São os Saraus Elétricos, onde podem ser visitas Luis Fernando Verissimo, Moacyr Scliar, L.A. Assis Brasil ou Luis Augusto Fischer. Chegam a estar 100 pessoas – a entrada custa R$5, e há bebidas durante as sessões (Rua João Telles, Bom Fim, telef. 51-3312-1347).

Scaramouche Araújo é o personagem central do livro de Mano Melo (Viagens e Amores de Scaramouche Araújo, edição Five Star), um jovem que, em pleno governo Médici, nos anos de chumbo da ditadura brasileira, decide partir pelo mundo fora, para visitar geografias tão distantes como a Holanda ou Goa, o Paquistão ou a França – um aventureiro brasileiro temperado de Jack Kerouac e de pimenta local.
O conceito de negritude foi central na antropologia dos anos setenta e oitenta, e Peter Fry, hoje com 63 anos, estudou as relações sociais e raciais no Brasil do século XX em livros como Feijoada e Soul Food, de meados dos anos setenta. Um dos pontos essenciais era a crítica à ideia de democracia racial e à obra de Gilberto Freyre (Casa Grande e Senzala). Passados estes anos, Fry regressa para chocar as universidades, os marxistas, os «estudos de género» e os antropólogos e políticos que defendem a excelência das quotas e da discriminação positiva. O livro chama-se A Persistência da Raça (edição Civilização Brasileira) e analisa a colonização portuguesa em Angola e Moçambique, por exemplo, além de reabilitar Gilberto Freyre e de lançar dúvidas sobre a submissão do Brasil a lógicas americanas de «combate» ao racismo. A ler.

Reinaldo de Azevedo é uma das vozes politicamente
incorrectas do Brasil de hoje. Jornalista, passou pela Folha de São Paulo, pela Bravo, pela República (de boa-memória) e pode agora ser
lido na Primeira Leitura. A editora
Barracuda lança Contra o Consenso,
reunião de alguns dos seus textos mais marcantes sobre cultura, sociedade, arte
e – sempre – política.
Reunião de fantasmas: o rapper MV Bill, o entusiasta do hip-hop Celso Athayde e o sociólogo Luiz Eduardo Soares lançam um livro a seis mãos, Cabeça de Porco (edição Objetiva) sobre a relação entre drogas, hip-hop, rap e a cultura urbana em cidades brasileiras da linha da frente (São Paulo, Rio, Porto Alegre, Belo Horizonte…).
Redescoberta no Brasil e ainda ignorada e muito pouco lido em Portugal, a ficção do gaúcho Caio Fernando Abreu (1946-1998), em reedição permanente: a editora Agir publicará em 2006 grande parte da obra do autor de Onde Andará Dulce Veiga? (Companhia das Letras), que passa agora ao cinema, adaptado por Guilherme de Almeida Prado. Entretanto, acaba de ser publicado o volume de contos Morangos Mofados, depois de Caio 3D – O Essencial da Década de 1970, onde se reúnem contos, poemas, cartas, e a extrema beleza de uma obra que procura sempre uma felicidade rara.



Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Alberto Mussa, com O Enigma de Qal (Record) distinguido com um dos prémios da Casa das Américas. Para mais informação sobre Mussa e este livro, ver o Gávea, aqui.
Logo depois das férias (estamos a falar do Brasil), a Companhia das Letras receberá o manuscrito do novo livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza, um romance sem o inspetor (ou inspector?) Espinosa como personagem central. Para aqueles que não passaram por lá, aqui se recorda o texto «Espinosa de A a Z», no Textos da Gávea, bem como uma entrevista de Garcia-Roza publicada na revista Ler, em Portugal, e transmitida na rádio Antena Um, de Lisboa. A entrevista levava o título «Um Marlowe brasileiro».
O Gávea, daqui a dez dias, estará no hemisfério sul. Voltará carregado de livros. Não se aceitam encomendas.
André Jorge, o editor português da Cotovia (Sérgio Sant’anna,
Bernardo Carvalho, etc.) anuncia que publicará o novo Sérgio Sant’anna – e está
a ponderar publicar, finalmente, João Gilberto Noll. Finalmente. Pedro Mexia,
por outro lado, prepara um volume com as crónicas de Nelson Rodrigues também
para a Cotovia. A Cotovia, já agora, prepara uma colecção inteiramente dedicada
à literatura brasileira, coordenada por Abel Barros Baptista.




Como seria Manaus nesse ano de 1894, quando Iaqub desceu do barco, no Rio Negro, e viu as obras das ruas, a lama dos pátios? Devia ser um desgosto grande e uma dor sem nome, porque a Serra de Contamana, a fronteira com o Peru, tinha o perfil negro da maldição lançada sobre todos os homens solitários que se atrevem a enfrentá-la ao fim do dia. Em Manaus, o Rio Negro assustara-o: os únicos rios que vira, em sonhos certamente, tinham sido os rios da Mesopotâmia, e nenhum era tão grandioso, tão frio, tão profundo e tão escuro como aquele Amazonas que o barco persegue de Belém para Santarém e, finalmente, de Santarém para Óbidos, de Óbidos para Juruti e Itacoatiara, de Itacoatiara até às águas sujas de Manaus, onde Iaqub chegara em Dezembro de 1894, numa manhã de domingo em que os sinos tocavam às primeiras horas da manhã e se aproximava o Natal dos cristãos.
Silvia Chueire/Eugenia Fortes, sobre Veríssimo (vem nos comentários): «Li O Tempo e o Vento quando tinha em torno de dez ou onze anos. Ana Terra devo ter lido umas três vezes, impressionada sempre com a força, a coragem, a beleza da história, da Ana. E principalmente porque aos meus olhos infantis tudo decorria como num filme. Eu via claramente paisagens, ambientes e personagens.E abosorvia o sentimento gaúcho. Ainda hoje me lembro de como "sonhei" o Rio Grande Do Sul, aqueles lugares todos. As vidas, as tramas.»
De um leitor do Recife (está nos comentários): «A distância geográfica entre o Rio Grande do Sul e o Recife é bem maior do que a que separa Pernambuco do Senegal. Não surpreende que um visitante recifense se sinta meio estrangeiro em ambos os longínquos sítios. O que nos une é a marca portuguesa, indelével tanto na Nova Lusitânia (assim se chamava Pernambuco até o séc. XVIII) e as terras gaúchas, povoadas que foram por açorianos. O que nos torna diferentes é que em Pernambuco os portugueses (frequentemente da região de Viana do Castelo, mas também houve açorianos) se misturaram com as índias, e posteriormente agregaram o componente africano. Já no Rio Grande do Sul costeiro vê-se muito mais nitidamente Portugal no rosto das pessoas (no interior, alemães, italianos, e alguns mulatos na região de fronteira) e a imigração, apesar de ter seus 200 anos, é muito mais recente. Pernambuco já tentou se libertar do Brasil por duas vezes, no séc. XIX. O Rio Grande do Sul também fez das suas. Mas o casamento até que tem sido duradouro...»


«Ana Terra descia a coxilha no alto da qual ficava o rancho da estância, e dirigia-se para a sanga, equilibrando sobre a cabeça uma cesta cheia de roupa suja, e pensando no que a mãe sempre lhe dizia: "Quem carrega peso na cabeça fica papudo". Ela não queria ficar papuda. Tinha vinte e cinco anos e ainda esperava casar. Não que sentisse muita falta de homem, mas acontecia que casando poderia ao menos ter alguma esperança de sair daquele cafundó, ir morar no Rio Pardo, em Viamão ou até mesmo voltar para a Capitania de São Paulo, onde nascera. Ali na estância a vida era triste e dura. Moravam num rancho de paredes de taquaruçu e barro, coberto de palha e com chão de terra batida. Em certas noites Ana ficava acordada debaixo das cobertas, escutando o vento, eterno viajante que passava pela estância gemendo ou assobiando, mas nunca apeava do seu cavalo; o mais que podia fazer era gritar um "Ó de casa!" e continuar seu caminho campo em fora. Passavam-se meses sem que nenhum cristão cruzasse aquelas paragens. Às vezes era até bom mesmo que eles vivessem isolados, porque quando aparecia alguém era para trazer incômodo ou perigo. Nunca se sabia. Uma vez tinham dado pouso a um desconhecido: vieram a saber depois que se tratava dum desertor do Presídio do Rio Grande, perseguido pela Coroa como autor de sete mortes. O pai de Ana costumava dizer que, quando via um leão baio ou uma jaguatirica, não se impressionava: pegava o mosquete, calmo, e ia enfrentar o animal; mas, quando via aparecer homem, estremecia. É que ali na estância eles estavam ressabiados.»
Para quem nunca esteve na Amazônia, é difícil imaginar como se chega quase à nascente do Juruá-Mirim, tanto mais que o rio nunca foi muito navegável. Não era rio de pesca, não era rio de gente, sobretudo na época das chuvas, de Outubro a Maio, e alguém só podia chegar a ele saltando de rio em rio, de igarapé em igarapé, de colina em colina, sobrevivendo aos ataques dos índios, às alucinações, aos animais desconhecidos e às febres.
Nem sempre. Às vezes os livros escapam-se por onde não deviam. Pousam onde não deviam. O Gávea recupera lentamente de tempestades, caminha devagar. É a vida. Mas isso passa.
Mais links portugueses: sites institucionais e blogs de autores portugueses. Há também um agrupamento revistas & sites de literatura em França, Inglaterra e EUA.
Acabam de ser acrescentados cerca de 100 novos links no Gávea: escritores portugueses, editores portugueses e livrarias portuguesas online. Sirvam-se. Seguem actualizações. Ou atualizações.
O António Viriato, do Alma Lusíada, deixou este texto na caixa de comentários do Gávea. Acho que pode ser um ponto de partida para uma discussão, como a que ocorreu aqui acerca do Acordo Ortográfico:
«A iniciativa do blogue Gávea, votado a promover o conhecimento recíproco da comunidade luso-brasileira, é, em si mesma, muito louvável, no deserto actual dominante na matéria.Mas, para lograr verdadeiro êxito, deve deixar-se de cedências ao politicamente correcto e não ter medo de tocar em certos temas-tabu, como a pouca simpatia e a diminuta curiosidade dos brasileiros, em geral, pela realidade portuguesa, seja ela de que tipo for: económica, política, histórica, artística ou literária, apesar dos esforços meritórios e persistentes de uns poucos, de ambas as margens do Atlântico. Não basta falar a mesma língua, para que nos entendamos ; é preciso alguma predisposição mental para compreender o nosso interlocutor e aqui parece-me que há um longo caminho a percorrer, sobretudo da parte dos nossos irmãos brasileiros. [...]»
Lembro-me de um dia, na apresentação de Ruy Castro no Porto (fim de tarde, bar do Teatro Tivoli, gin crepuscular, gente que entra e sai), por causa da sua biografia de Garrincha. Falei dos livros do Ruy. Ele brincou: «Você não mencionou meu livro sobre a bossa-nova porque você só gosta de samba.» Ah, claro que não era verdade; piada mesmo. Mas este fim-de-semana, com Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho juntos em São Paulo, a cantar Lupicínio Rodrigues, por exemplo, eu não resisto a não gostar senão de samba durante duas horas, pelo menos.
Escreve o Luís R. Gomes por e-mail: «Porque raio fica tão fascinado com a literatura brasileira? E com os blogs brasileiros? Sigo o Aviz e vejo que cada vez há mais links de blogs do Brasil.» Resposta: não está à vista?

"Minha vida é o milagre banal da eternidade feita de presente, passado e futuro simultâneos – substâncias do mesmo sonho. Meus dias são todos de uma vez só. E eu me respondo com interrogações. Existo, até que deixe de existir. A maior transcendência é ter uma pele permeável e ser o que está do lado de dentro e ser o que está do lado de fora também."Adriana Lisboa nasceu em 1970, no Rio de Janeiro, e cresceu entre a cidade e a fazenda de sua família no interior do estado. Viveu em França, estudou música e trabalhou como cantora, flautista e professora. Publicou os romances Sinfonia em Branco e Os Fios da Memória, ambos na Rocco.




Nas últimas duas décadas do século XIX, inúmeros livros foram publicados com a finalidade de atingir uma parcela ainda pouco explorada pelo mercado editorial: "o povo". Com o tempo, as belas encadernações vindas da Europa e os textos assinados por intelectuais de rara erudição, tão apreciados pelas elites ilustradas brasileiras, foram cedendo espaço, nas prateleiras das livrarias, às brochuras baratas, que carregavam consigo tramas mirabolantes, narrativas audaciosas, de tirar o fôlego. "Nós, editores", dizia o literato Adolfo Caminha, reproduzindo a frase que todo escritor de talento escutava ao tentar publicar sua obra, "preferimos ao estilo, à arte um bom enredo, uma história de sangue cheia de mistérios, comovente, arrebatadora! É disso que o povo gosta, e nós, a respeito de gosto literário, só conhecemos o povo."
Ah, mil perdões. O Gávea voltou depois de quase um mês de absentismo, degradação moral e más leituras. Sobretudo portuguesas, vale a pena dizer. Cá vamos.
Por motivos absolutamente marginais, o Gávea interrompeu as suas actividades durante algumas semanas. Retomará a maratona habitual na próxima quarta-feira. Sem falta.
Para os leitores portugueses, em Portugal: o programa Escrita em Dia, da Antena Um, encerra neste domingo a série de 10 emissões dedicadas a entrevistas com escritores brasileiros; o derradeiro convidado é Sérgio Sant'Anna, o autor de O Voo da Madrugada (edição brasileira na Companhia das Letras, edição portuguesa na Cotovia).

Está praticamente nas livrarias brasileiras uma antologia de contos de Rubem Fonseca: cerca de 800 páginas seleccionadas pelo próprio escritor de entre os seus contos. São 64 no total.
De São Paulo, o bom Ilídio Soares chama a atenção para a realização dos «Encontros de Interrogação», o nome do «evento literário» que será realizado no Itaú Cultural, em São Paulo, nos dias 22 e 23 de novembro. Cerca de cem poetas, prosadores, críticos e jornalistas estarão presentes, participando dos debates em mesas temáticas. Escreve o Ilídio: «Sabe quem virá para esse encontro? Veja só: Claudia Roquette-Pinto,Wilson Bueno, Horácio Costa, Carlos Ávila, Ignácio de Loyola Brandão, Ricardo Aleixo, Sebastião Nunes, Glauco Mattoso, Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção... para citar poucos nomes... enfim, só a fina fauna e flora da nossa literatura atual ... o Itaú Cultural distribuirá uma revista dedicada especialmente ao encontro, e produzirá um livro e um DVD com depoimentos de todos os autores participantes.»
O novo livro de Ana Miranda (a autora de Boca do Inferno, Companhia das Letras; edição portuguesa na Dom Quixote), que não publicava poesia há 21 anos, é Prece a uma Aldeia Perdida e sai por estes dias.
«Uma guitarra, uma flor ao soldado desconhecido de My Lai, as escuras e irreversíveis saudades, um garoto que, como eu, amava Emerson, Lake & Palmer. Os rasantes dos helicópteros surgindo detrás das montanhas, as taturanas, as tatuagens, os canhoneiros, o tênis saltando poças de água e desdém, a linha fina da chuva morna e pegajosa, cigarrilhas adocicadas, lojas de ervas, um disco italiano de 78 rpm: Catari. As gardênias, os vidros, os vidrilhos, a lentidão das trilhas, os nossos almoços, as nossas bússolas, um saquinho de madrepérolas, outro de fotos de Xangai & adjacências, as convalescenças, os cortes das pernas que iam se fechando aos poucos, as pomadas, os ungüentos, as cartas indecifráveis, as moscas estagnadas, as legendas, as semelhanças, os rumos, a hidrografia nostálgica de uma tarde avermelhada.»
Livros devem ficar mais baratos com isenção fiscal. «Os livros brasileiros entraram na lista dos produtos que vão ficar livres de impostos e contribuições. O governo federal e o Congresso Nacional estão preparando uma série de medidas com o objetivo de reduzir preços e aumentar as vendas de livros no país.» [Via Folha de São Paulo]

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BIODIVERSIDADE
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
Paulo Henriques de Britto, Macau. Companhia das Letras.
Entrevista de A.L. Garcia-Roza, por Francisco José Viegas; texto integral. (Publicada originalmente na revista Ler, de Portugal -- agradecimentos à sua directora, Mafalda Lopes da Costa.) Há também uma espécie de dicionário dos livros de Garcia-Roza, ou seja, do delegado Espinosa.
Para os amigos brasileiros do Gávea -- especialmente do Rio: está aí o espectáculo de teatro do actor e encenador português Manuel Wiborg, Vou Lá Visitar Pastores, baseado na obra homónima de Ruy Duarte de Carvalho - Vou lá visitar pastores. Exploração Epistolar de um
Para os leitores portugueses, em Portugal: o autor entrevistado este domingo passado no programa Escrita em Dia, da Antena Um, foi Alfredo Luiz Garcia Roza, o autor de Uma Janela em Copacabana, O Silêncio da Chuva, Achados e Perdidos ou O Perseguido.
O Cisco recomenda o Traça e o Beco dos Livros, dois sebos de Porto Alegre. Em breve terão uma visita.
E, mesmo em Fernando de Noronha, dá para assinalar que o Gávea se antecipou largamente aos «segundos cadernos» da Folha, do Globo e do Estadão do fim-de-semana passado, que chamavam a atenção para a publicação dos dois volumes de O Continente, de Erico Verissimo, que era o grande destaque das suas primeiras páginas. O Gávea já tinha assinalado o acontecimento há uns dias...
Mas, apesar de Fernando de Noronha ficar um bocadinho distante de quase tudo, gostaria de chamar a atenção para os comentários ao post «Acordo Ortográfico»; vê-se que a polémica promete continuar ou pelo menos agudizar-se. Contra ou a favor de um acordo ortográfico da língua portuguesa?

A partir de hoje, o Gávea conta com uma lista de blogs do Brasil. Está aí, na coluna da direita, ao fundo. Agradecemos sugestões e envio de links; como habitualmente, um selecção de links estará sempre em movimento.

«Não existe bom escritor brasileiro; se existisse, escreveria diretamente em inglês (literatura é um costume anglo-saxão imitado por outros povos com variados graus de incompetência) para vender seus livros num mercado digno do nome e ser lido por gente com cérebro homeotérmico. Não sei de nenhum, no Brasil, capaz de fazê-lo - mesmo entre os melhores, que sabem das coisas. O português brasileiro é um idioma insalubre: o lugar onde melhor é falado é o Maranhão, e o pior, São Paulo. Usá-lo corretamente pode causar desnutrição, barriga-d'água e cisticercose.» Contos Licenciosos.
Oswald de Andrade morreu a 22 de Outubro de 1954. São Paulo assinala. O Gávea tratou há tempos o Manifesto Antropófago e o próprio Oswald.
Carlos Alberto Xavier, o assessor especial do ministro da Educação, referiu-se, nas suas declarações sobre o Acordo Ortográfico, a casos específicos do português de Portugal e do Brasil. Entre outros exemplos, este:
«Para facilitar a cooperação na África e no Timor, por exemplo, é fundamental essa ‘universalização’. Não dá para uma professora dizer ‘dictado’, seguindo um livro de Portugal e ‘ditado’ quando utilizar um livro do Brasil.»Não é verdade. No português de Portugal escreve-se «ditado» e não «dictado».
Brasil espera que Portugal e Cabo Verde ratifiquem acordo ortográfico da língua portuguesa.

«É noite e São Paulo rico está resumido ali na pista do Jequiti-Bar. Durante o dia, as mulheres fizeram coisas inúteis: acordaram tarde, almoçaram em bloco, jogaram pife-pafe, compraram a revista Sombra, tomaram chá na Livraria Jaraguá, jantaram na Papote e falaram das amigas.
Os homens ganharam dinheiro. Alguns não fizeram muito esforço para isso: apenas assinaram alguns papéis. Outros estiveram nas fábricas, conversaram com o gerente, telefonaram para o Rio. À tarde foram ao Automóvel Club, um lugar triste como um cemitério. Perderam algum dinheiro em jogos inocentes; mas o que perderam nem chega a representar uma humilde fração dos lucros que conquistaram durante o dia.»
Vale a pena visitar o blog Nove de Copas ; Júlia escreve com uma lentidão melancólica, cheia de poeira:
«me deu tanta vontade de te responder. eu me lembro dessa conversa sobre a calça de lycra como num sonho. talvez tenha sido de noite. eu e o ... nos encontrávamos muito à noite. era sempre assim, de noite era mais leve, era cheio de festa. não era boemia, era vida noturna mesmo.
fico pensando no que eu era antes. coisas que estão gravadas aqui. coisas que você escreve no blog e que eu queria ter tido para uma amiga que agora lê petrarca. tudo se encaixa. tenho um conto que ainda não existe e vivo sempre como um eco. os anos passados, as alegrias seguintes.
e nossos encontros. fora da página também é bonito.»

«Era o estímulo para uma exegese alegórica. Spíridon analisou a cena: três pessoas em três cruzes, cada cruz com quatro extremos -- 3, 3 e 4: portanto, um triângulo iósceles de perímetro 10 e de altura menor que a bae -- signo da natureza humana. Altura menor que a base indica maior propensão à terra que ao céu. O valor do perímetro, 10, é o dobro de 5 -- que são os extremos do corpo físico. A qualidade de isósceles, ou seja, a de possuir dois lados iguais, representa o equilíbrio do Bem e do Mal.»Alberto Mussa nasceu no Rio de Janeiro em 1961. Estudou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi professor. Livros anteriores: Elegbara (Revan, 1997), O Trono da Rainha Jinga (Nova Fronteira, 1999, que foi prémio da Biblioteca Nacional)
«Há uma página que tem vários textos do nosso velhote. Para consultar a maior parte tem que ser assinante, excepto o Daily Millôr (na coluna do lado esquerdo) onde se podem ler quase duzentos textos.»Obrigado, Tiago; continuamos à espera de mais sugestões.
Terminou em beleza o «passatempo Luana Piovani» aberto pelo Gávea. Ao vigésimo segundo email (e mais uma dezena de comentários), uma leitora acertou no nome da escritora portuguesa. Infelizmente, a resposta chegou uns minutos depois de encerrarmos o passatempo. Nada de prémios e a Academia continua em Copacabana.
A excelente Meg Guimarães, do Sub Rosa corrige-nos, e ainda bem. Foi uma distracção, digamos, fatal: o título da biografia de Nelson Rodrigues, por Ruy Castro, leva o título de O Anjo Pornográfico e não Flor de Obsessão, naturalmente. Flor de Obsessão é o título do livro que reúne extractos da obra de Nelson. Ambos os livros foram publicados pela Companhia das Letras. O post em que tínhamos errado está lá em baixo, muito em baixo -- é o segundo da vida do Gávea. Desculpa o atraso, Meg.
A sempre atenta Cristina Fernandes, do blog português Janela Indiscreta recomenda mais um link para a coluna das editoras, ali em baixo, à direita: o da Cosac Naify. A ter em atenção a qualidade gráfica dos seus livros.
Rosella Pristerà mantém um blog, em Itália, onde traduziu a nossa referência ao manifesto antropofágico de Oswald de Andrade. O blog de Rosella chama-se Diario di Bottega.



«Nunca acompanhei um enterro como o de Fernando Sabino. Acho que foi como ele queria. Os amigos conversavam, riam, contavam histórias e não iam embora, apesar do forte mormaço. Foi o mais demorado que se tem memória. “Se colocarem um copo de cerveja em cima do túmulo, ninguém mais sai daqui”, comentou o deputado Miro Teixeira, marido de Leonora, filha de Fernando. O ponto alto (já ia escrever “da festa”) foi a Ramblers Traditional Jazz Band tocando músicas como nos funerais negros de Nova Orleans. O cronista deve ter gostado. Claro que teria preferido participar da apresentação tocando bateria, como fizera um ano antes quando reuniu alguns amigos para comemorar o seu 80.º aniversário.
[…] Vi muita gente rir chorando. Verónica entre lágrimas se lembrava rindo da última vez que estivemos com seu pai no bar da Livraria da Travessa, não faz muito tempo. Com uma boa platéia na mesa, Fernando estava especialmente engraçado. Como no enterro, não queria deixar ninguém ir embora. Quando alguém ameaçava se levantar, ele perguntava: “Vai fazer um discurso?” E não parava de contar histórias: “Espera aí, ouve só a última do mineiro.” Eram as minhas preferidas, porque ele conhecia a alma de seu povo como a dele próprio.
Dizia que mineiro é tão cauteloso e desconfiado que não gosta de revelar nem a identidade.
– Qual é o seu nome todos? – pergunta o carioca.
– Diz a parte que você sabe – desconversa o mineiro.
Nessa outra, o escritor conta o diálogo com um motorista mineiro em Nova York:
– Ah, você também é de Minas?
– Sou, sim sinhô.
– De onde?
– De Minas mesmo.
Se consegue esconder de onde é, imagina quando lhe pedem uma opinião política.
– Que tal é o prefeito daqui?
– O prefeito? É tal qual eles falam dele.
– E o que é que eles falam dele?
– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo o que é prefeito.
Minas vai peder muito de sua graça sem as última do Fernando Sabino.»

Atenção ao blog português O Cafajeste, onde há muitos textos de autores brasileiros (e comentários sobre futebol brasileiro também) -- ele é fanático de Luis Fernando Verissimo. E é para ele que anunciamos a entrada do link sobre Millôr Fernandes na coluna da direita.
Está quase terminado o volume das memórias de Zuenir Ventura (ver link na coluna aí abaixo), nomeadamente sobre os seus 50 anos de jornalismo. Zuenir, mais um carioca nascido em Minas, pode ser lido semanalmente no O Globo -- e o livro será publicado em Fevereiro de 2005.
Uma das canções do disco é o «Samba da Mala»: «Olha essa mulher que no samba entrou, é louca/ Samba mal e quer cantar, mas a voz é pouca…»
E pessoais. Acaba de sair um CD com a «trilha sonora» do bar Bip Bip, um barzinho estacionado no centro de Copacabana, na Rua Almirante Gonçalves – tudo cheio de sambas e violões (vilões também…). O Bip Bip completa 35 anos «a serviço do porre e da amizade», coisas boas, e no CD há músicas com Renato Partideiro, Marcos China, Nize Carvalho (olha que boa voz…), Wilson Moreira, Aldir Blanc, Cristina Buarque, Nelson Sargento, Paulo César Pinheiro – e o cavaquinho impressionante de Wanderson Martins. Tudo isto, depois do livro sobre o bar, Bip Bip, um Bar a Serviço da Alegria (escrito e organizado por Marceu Vieira, Luiz Pimentel e Francisco Genu).


Aproveitando o feriadão brasileiro, recomendamos Dalton Trevisan. Em breve, mais textos deste autor. Por agora fica este, para abrir o apetite.
«– Depois te beijava da ponta do cabelo até a unha encarnada do pé. Cada pedacinho escondido de teu corpo. Afastava essa coxa branquinha de arroz lavado em sete águas. E me perdia no teu abismo de grandes lábios rosa.
Agora a mãozinha quente e molhada.
– Sou homem de certa idade. Com a minha vivência faria você sentir prazer até no terceiro dedinho do pé esquerdo. De tanto gozo sairia flutuando pela janela sobre os telhados da Praça Tiradentes. […] Quer experimentar hoje?
– Próxima vez eu resolvo.
– Por que não agora? Já está aqui. Tão fácil. Até chovendo. Mais aconchegante.
– Hoje não.
– Você é que sabe. Só não creio na tua frieza. Tudo me diz que é moça fogosa. Essa boca vermelha e carnuda. É de quem gosta. Mais uma coisa, anjo, enquanto eu falava, o teu narizinho abria e fechava…»
Dalton Trevisan, Continhos Galantes
[edição L&PM]
Para os nossos leitores portugueses: este fim de semana, à meia-noite de domingo (de domingo para segunda, portanto), Bernardo Carvalho é entrevistado no programa «Escrita em Dia», da Antena Um.
Marcelo Firpo sugere alguns links para o Gávea. Durante a semana iremos tratar deles; fica, para já, o da Livros do Mal, uma editora independente gaúcha, Rio Grande do Sul. Obrigado, Marcelo.
Foram adicionados mais links na secção «Escritores» (coluna à direita, em baixo): desta vez, Ronald de Carvalho, José Lins do Rêgo, Alcântara Machado, Cruz e Sousa, Graciliano Ramos, Gonçalves Dias, Manuel Antônio de Almeida e Lima Barreto. Foi também aumentada a lista de sites com livros on line, de onde se podem fazer downloads de clássicos portugueses a brasileiros, de Os Lusíadas às Memórias Póstumas de Brás Cubas.

«Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
[…]
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
[…]
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura - ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo - a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, - o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: - Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.»

Erro de português
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
Recordações do outro, mais antigo, blog de Paulinho Assunção, o Kafka em Belo Horizonte, ou A Volta de Kafka em Belo Horizonte, para sermos mais precisos:
«Anteontem, Kafka, ao ver o verde-água das flores das jabuticabeiras, flores com tornados e furacões de abelhas em festa e revôos, as abelhas em saudações e reverências, abelhas orquestrais, abelhas nubentes com seus revôos de vésperas de frutos, pensei na moça que Vicente Gunz chama Cristina do Porto, a moça que também dá bons-dias e boas-tardes às florações das árvores portuguesas. Era manhã de fins de julho nos altiplanos do Alto do Paranaíba, lá onde nasceu João Serenus, lá onde os sanhaços vivem de namoro com as laranjeiras.»
«James Joyce nos visitou hoje na varanda da Rua Paraíba. Trazia um cachecol listrado, um chapéu com fitas verdes e ocupou o banquinho de sempre, um banco que fica ao sul da varanda e que dá para o jardim, quase rente ao canteiro de begônias cultivado pela Mulher da Aura Azul. Éramos seis, logo no começo da tarde. A todo instante João Serenus chamava Joyce para uma partida de truco. Joyce ria e solfejava velhas canções dublinenses. Murilo Rubião, no banquinho ao norte, admirava a coleção de borboletas-tigre de Vicente Gunz. A tarde caminhava de chinelos, preguiçosa e sem pátria, tarde de azuis cosmogônicos, fundos e profundos azuis da América do Sul. Tínhamos numerosas palavras leves, palavras-algodoais, no coração. E foi então que o Joyce, logo seguido por Lucas Baldus e, depois, por todos nós, decidiu cantarolar a quinta bachiana do Villa-Lobos.»

«Hoje passei num sebo aqui perto de casa e encontrei muitos volumes daquela coleção, publicada provavelmente lá pelos anos 70, dos ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura.
Você já deve ter visto; pelo menos aqui em São Paulo qualquer sebo tem. A capa às vezes é acobreada, às vezes branca, dependendo da edição. Um volume para cada ganhador do prêmio, um ou dois livros por volume. Bonitinha, gravações douradas na lombada, capa macia. Aquilo que se costumava chamar de "edição luxuosa" numa época em que isso não era tão comum.
A julgar pelas pencas de volumes disponíveis nos sebos de hoje, eles devem ter sido muito vendidos em seu tempo. Mesmo caros como suponho que eram.
Impossível não sorrir imaginando o público-alvo da série. Armandinho, o pequeno-burguês brasileiro de todas as épocas, que quer ter cultura e se familiarizar com a alta literatura de seu tempo. Não que ele próprio tenha muita consciência desse desejo, mas os publicitários e editores têm, e volta e meia atingem em cheio o coração de Armandinho com alguma nova surpresa.»
Depois de ter mencionado Caio Fernando Abreu (ver texto mais abaixo e reprodução da capa de Onde Andará Dulce Veiga?), deparo com esta nota, publicada no O Crítico Literário:
«Este parece ser o primeiro e último romance de Caio Fernando Abreu. Um jornalista à procura de uma atriz famosa, Dulce Veiga, encontra sua filha, que é uma roqueira. Tem muitos pontos onde poderia-se dizer que o autor sofria de pedantismo intelectual, porém isso não é verdade, considerando que pedantismo é algo de conhecimento burlesco, enquanto Caio Abreu tinha notável erudição. Pelo contrário. O jornalista, personagem principal do livro, é muito culto, gosta de coisas refinadas, e isso transparece em sua narração.
O jornalista vislumbra, na frente do Parque do Ibirapuera, em determinado trecho, uma mulher fazendo o mesmo aceno que Dulce Veiga fazia: colocar o dedo indicador da mão apontando para o céu. Em Aparecida do Norte que supostamente ela está escondida - pois ela fugiu da cidade de São Paulo, para encontrar sua paz. Seria a mulher do Parque a própria Dulce Veiga? Ele fica obsessivo com o gesto dela, e no final do livro ele encontra a paz que julga merecer, justamente em Aparecida do Norte, quando tenta encontrá-la.
Vale a pena ler o livro, é uma história de crise-superação, de certa forma. O jornalista está imensamente estressado, sem dinheiro e tudo mais, e no final encontra a sua paz, que está buscando faz tempo. Ele encontra, no caso, a paz, internamente, dentro de si mesmo, e faz o gesto de Dulce Veiga, apontando o indicador ao céu.»
O blog português Leitura Partihada está a comentar e a ler, passo a passo, Clarice Lispector. Uma das suas próximas leituras partilhadas será A Grande Arte, de Rubem Fonseca.
Vale a pena ler o texto de Auguto Nunes sobre o assunto e sobre o caso de Adelita. Pergunta-se o leitor português: quem é Adelita? Perguntam-se os leitores brasileiros: quem é essa Adelita? Pois, meus amigos, era um general. Leiam:
«Os integrantes da Academia Brasileira de Letras andam audaciosos demais. Ainda há pouco a turma que hoje organiza festas com a presença de colossos femininos (eventualmente sem calcinha, como comprovou a modelo e atriz Luana Piovani) nem sequer admitia a inclusão de escritoras na veneranda Casa de Machado. O primeiro mandamento do clube avisava: homem com homem, mulher com mulher. A mistura de sexos, mesmo naquele templo tão austero, poderia sugerir indícios de promiscuidade.O resto do texto está aqui.
Isso acabou quando já passava da hora: a ABL revogara pudores havia anos. Na década de 70, por exemplo, atropelara as últimas fronteiras da obscenidade ao conceder uma vaga a Aurélio de Lyra Tavares. Quem é a figura?, perguntarão os mais jovens. Que obras legou à posteridade esse intelectual tão pouco familiar à nação dos desmemoriados?, talvez se interroguem brasileiros de todas as idades.»
Paulo Roberto Pires, que foi editor da Planeta (Brasil) escreve um texto sobre dois nomes que marcaram a vida intelectual brasileira, Paulo Francis e Ênio Silveira.
«A posteridade foi infinitamente mais cruel com Francis, que virou a caricatura do reacionário em tempos politicamente corretos e, pior ainda, passou a ser idolatrado por isso. Dezenas de subarticulistas o elegem santo padroeiro para escorar vacilações intelectuais e agressividade verbal, sem levar em conta que o Paulo Francis a que tanto exaltam não foi um personagem dado e acabado, mas o resultado de um percurso intelectual rico e conturbado que seus admiradores de hoje certamente não teriam a mesma coragem em percorrer, bons fiscais de obras prontas que são.Todo o texto no No Mínimo.
Ênio Silveira é referido, muitas vezes, como o modelo do editor "romântico", uma espécie de doce anacronismo na tubaronagem do negócio editorial globalizado. É aquele nome que se homenageia com condescendência, minimizando quase sempre sua real contundência política e sua efetividade como empresário, sempre mobilizado em encontrar novas soluções para um produto cada vez mais difícil de vender como o livro. E, na maior parte das vezes, é minimizado que sua ousadia não se restringia à ideologia, muito pelo contrário, mas na possibilidade de apostar no novo, esta ainda existente mesmo em momentos de pragmatismo agudo.»
Mas se pensam que o Jorge Marmelo é um escritor fescenino e libidinoso que apenas presta atenção às belas letras brasileiras quando ocorrem acontecimentos piovanianos, desiludam-se. O Jorge é um dos portugueses mais atentos e informados sobre literatura brasileira. Justamente, chamou a atenção do Gávea para a publicação, no Portal Literal, do primeiro conto de Rubem Fonseca e da primeira crónica de Luis Fernando Verissimo. Obrigado, Jorge.
A Primavera dos Livros paulista (no Rio de Janeiro decorreu no Jockey Club, bem perto da Gávea, justamente...) vai ter lugar entre 5 e 7 de Novembro, no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000). Abre às 10:00 da manhã e fecha às 23:00 horas.

Quase Memória, premiado romance de Carlos Heitor Cony sobre a vida de seu pai, será publicado em Portugal pela editora Palavra.
O bom Sérgio Oliveira, do Rio de Janeiro (onde prepara o seu doutoramento em Filosofia – além de manter o blog A Jangada de Letras), propõe links para mais três autores brasileiros: Caio Fernando Abreu, Victor Giudice e Paulo Leminski. Obrigado, Sérgio.

A leitora Luciana Rodrigues recomenda também uma visita ao site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (link na coluna ao lado), onde existe também a possibilidade de fazer download de livros brasileiros. No entanto, esclarecimento adicional, o site da BN não é muito friendly para browsers que não tenham a chancela Windows, ou seja, que não sejam o Internet Explorer.
Edifícios destes não são de menosprezar; e a verdade é que às vezes são injustamente ignorados. O Real Gabinete, para quem vive no Brasil, é de grande utilidade: tem um arquivo informatizado de cerca de 400 000 títulos e possui a prerrogativa do «depósito legal» português, o que significa que recebe os livros publicados em Portugal. Além disso faz empréstimo de livros.
A Ana Albergaria (que mantém, em Paris, o blog Crónicas Matinais) recomenda outro link para download de livros brasileiros online, o do Terra. Obrigado, Ana. Shalom.

Obrigado pelas mensagens. O Gavea foi esteve de férias durante duas semanas. Regressa para mais páginas de livros.
Ainda André Murteira, que responde ao desafio lançado por Fernando Frazão há uns dias -- acerca da literatura brasileira actual, e se a actual é inferior à do passado «ou apenas menos conhecida entre nós do que era dantes»:
«Eu não nego o desconhecimento, com o qual perdemos muito; mas, do pouco que sei, parece-me também que o próprio Brasil não reconhece actualmente figuras canónicas comparáveis às que teve o século passado. Corrijam-me se estou errado, mas onde é que lá há hoje poetas vivos com uma reputação comparável à que tiveram, em vida, Drummond ou João Cabral de Melo Neto? Ou romancistas com o estatuto de Guimarães Rosa, também consagrado em vida? Ao contrário do que acontecia no tempo deles, a "opinião estabelecida" no Brasil não parece achar que haja autores brasileiros vivos particularmente geniais. E isso confirma a impressão da sua literatura viver um certo declínio, embora relativo.»
O André Murteira, leitor do Gávea, recomenda mais um link sobre Paulo Francis, além daquele que já tínhamos indicado (ver coluna dos links).

O programa governamental Fome Livro, que este ano se designa Livro Aberto, escolheu 2.016 títulos para distribuição nacional em bibliotecas (apenas 130). Há alguma polémica, como se esperava, mas foi o princípio. No site da Fundação da Biblioteca Nacional vem a lista dos livros escolhidos.
O IG (provedor brasileiro que esta semana mudou o nome Internet Grátis para Internet Generation) lançou também um serviço de download (com .zip) de textos integrais de língua portuguesa -- há também clássicos portugueses, como Alexandre Herculano, Eça, Camilo, Garrett, Pessanha, Antero de Quental, Cesário, Florbela Espanca, Gil Vicente, Júlio Dinis ou Vieira -- além de Camões, naturalmente. Tem alguma vantagem sobre outros sites de livros online, uma vez que o download é imediato. Outro pormenor: além dos clássicos de Língua Portuguesa tem, disponível em inglês, entre outros, Joseph Conrad, Poe, Shakespeare (Hamlet, Othello, MacBeth...), Milton (o Paradise Lost...), Agatha Christie, Jane Austen, Darwin, Hardy, Swift, etc., etc. Também aqui, a vantagem é a rapidez do acesso.
Alguma polémica, na blogosfera portuguesa, sobre a recente entrevista de José Eduardo Agulusa na revista Época -- nomeadamente, as suas frases sobre Saramago. Agualusa acaba de lançar, no Brasil, O Vendedor de Passados (edição da Gryphus).
Livro do poeta Ruy Espinheira Filho sobre Manuel Bandeira: Forma e Alumbramento. Poética e poesia em Manuel Bandeira (edição José Olympio). O lançamento é no dia 17, em Salvador (onde vive Ruy), na Civilização Brasileira do Shopping Barra. Um de nós estará lá. Ver entrevista de Ruy Espinheira Filho na edição da Época desta semana (link não disponível).
Em breve teremos, no Gávea, uma lista de blogs brasileiros e portugueses que tratam do que nós tratamos. Está em organização. Entretanto, aceitamos sugestões que possam escapar à nossa navegação. O endereço de email é para usar.
Um português e uma gaúcha decidiram unir as duas margens do Atlântico num blog. Mais literatura.
O Fernando Frazão, que evoca «as carrinhas de chapa ondulada da Gulbenkian que tanto contribuiram para o meu gosto pela leitura» a propósito do post sobre as Bibliotecas do Metrô, em São Paulo, coloca duas questões curiosas: 1) «Depois da pujança da literatura brasileira do século passado assiste-se nomeadamente na sua primeira metade assiste-se a um decrescer de produção em quantidade e em qualidade ou é mero desinteresse dos editores portugueses?» 2) «Comparando o português escrito por brasileiros por autores classicos (Amado, Verissimo etc) com os modernos, noto um afastamento notavel em relação aos português dos portugueses. Será que é preciso traduzir ou "reformatar" os textos?»
António Ramos, outro leitor atento do Gávea, propõe uma página sobre Paulo Francis, a quem dedicaremos em breve alguns posts; é sempre bom lembrá-lo.
Correcção feita pelo Carlos Cunha (do blog Partículas Elementares, e leitor atento de Nassar): a edição portuguesa dos livros de Raduan Nassar é da Relógio d'Água e não da Cotovia.
Mongólia, de Bernardo Carvalho, lido por Claudinei Vieira; Budapeste, de Chico Buarque, lido por Urariano Mota; de Abusado, de Caco Barcellos, por Rodrigo Barreto. Cortesia do site (ah, Flor do Lácio!, devíamos dizer «sítio»?) Capitu


«Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio. A companhia ofereceu pernoite num hotel do aeroporto, e só de manhã nos informariam que o problema técnico, responsável por aquela escala, fora na verdade uma denúncia anônima de bomba a bordo. No entanto, espiando por alto o telejornal da meia-noite, eu já me intrigara ao reconhecer o avião da companhia alemã parado na pista do aeroporto local. Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita. Apaguei a tevê, no Rio eram sete da noite, boa hora para telefonar para casa; atendeu a secretária eletrônica, não deixei recado, nem faria sentido dizer: oi, querida, sou eu, estou em Budapeste, deu um bode no avião, um beijo. Eu deveria estar com sono, mas não estava, então enchi a banheira, espalhei uns sais de banho na água morna e me distraí um tempo amontoando espumas. Estava nisso quando, zil, tocaram a campainha, eu ainda me lembrava que campainha em turco é zil. Enrolado na toalha, atendi à porta e topei um velho com uniforme do hotel, uma gilete descartável na mão. Tinha errado de porta, e ao me ver emitiu um ô gutural, como o de um surdo-mudo. Voltei ao banho, depois achei esquisito hotel de luxo empregar um surdo-mudo como mensageiro. Mas fiquei com o zil na cabeça, é uma boa palavra, zil, muito melhor que campainha. Eu logo a esqueceria, como esquecera os haicais decorados no Japão, os provérbios árabes, o Otchi Tchiornie que cantava em russo, de cada país eu levo assim uma graça, um suvenir volátil. Tenho esse ouvido infantil que pega e larga as línguas com facilidade, se perseverasse poderia aprender o grego, o coreano, até o vasconço. Mas o húngaro, nunca sonhara aprender.»
Via Folha de São Paulo:
«Chico Buarque e Caco Barcelos são os vencedores do prêmio máximo do Jabuti. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou, na noite de ontem, os dois vencedores das principais categorias do Jabuti, em cerimônia realizada no Memorial da América Latina, em SP.
O livro-reportagem Abusado, de Barcelos, e o romance Budapeste, de Chico, foram eleitos Livro do Ano-Não Ficção e Livro do Ano-Ficção, respectivamente. O anúncio de Barcelos como vencedor foi muito aplaudida. A vitória de Budapeste, ao contrário, foi recebida com silêncio. O livro de Chico não constava da lista de vencedores já conhecida até então, tendo recebido anteriormente menção honrosa como romance.»
Causa estranheza, de facto, esta atribuição do prémio a Budapeste.

«Foi chamado de Ocidental por nômades que não conseguiam dizer o seu nome quando viajou pelos confins da Mongólia. Fazia tempo que eu não ouvia falar dele, até ler a reportagem no jornal. Voltou da China há cinco anos e largou a carreira diplomática. Sua volta intempestiva coincidiu com a eclosão da crise da pneumonia atípica na Ásia, o que pode ter servido de explicação para alguns, mas não para mim. O jornal diz que ele morreu num tiroteio entre a polícia e uma quadrilha de seqüestradores, quando ia pagar o resgate do filho menor no morro do Pavãozinho. Pela idade do garoto, só pode ser o que nasceu em Xangai, logo antes de voltarem para o Brasil, quando ele decidiu mudar de vida sem dar satisfações a ninguém. Ao que parece, também saiu de casa em sigilo, terça-feira de manhã, para pagar o resgate. Não avisou ninguém, muito menos a polícia. Seguiu à risca as ordens dos seqüestradores. Os policiais o seguiram assim mesmo, sem que ele percebesse. O menino foi salvo, mas ele morreu no local. Tinha quarenta e dois anos. Ninguém vai ser responsabilizado, é claro. A polícia alega que ele foi imprudente. Liguei para um diplomata do Itamaraty que vive em Varsóvia e que o conhecia desde pequeno. Eram amigos de infância. Estava muito abalado. Decidira pegar o primeiro avião para o Brasil, que partia de Frankfurt naquela mesma noite. Estava de saída para o aeroporto. Não tinha tempo para falar comigo. [...] A literatura já não tem importância. Bastaria começar a escrever. Ninguém vai prestar atenção no que eu faço. Já não tenho nenhuma desculpa para a mais simples e evidente falta de vontade e de talento. O fato é que a notícia da sua morte me deixou ainda mais prostrado. Foi uma razão a mais para não sair. Não sou um homem especialmente corajoso, e os anos foram me deixando cada vez menos. Em princípio, ele também não era de correr riscos. Mas, ao contrário do que acontecia comigo, a impaciência e o destino o impeliam irremediavelmente na direção do perigo. Foi pensando nisso que, de repente, lembrei que ainda deviam estar comigo as coisas que ele tinha deixado na embaixada de Pequim antes de voltar para Xangai e retomar as funções de vice-cônsul, não por muito tempo.»
Os Prémios Jabuti de 2004 foram hoje entregues, em São Paulo, no Memorial da América Latina (e ontem, no Rio, foi entregue o Camões, a Agustina Bessa-Luís). Destaque para Bernardo Carvalho, Mongólia (categoria Romance, edição portuguesa Cotovia); Sérgio Sant'anna, O Vôo da Madrugada (categoria Contos, edição portuguesa Cotovia), Alexei Bueno, Poesia Reunida (categoria Poesia), Caco Barcellos, Abusado (categoria Reportagem e Biografia).
O Estado de São Paulo (link não disponível) anuncia que «2007 será o Ano Fernando Pessoa no Brasil». Colaboração (em São Paulo) entre a Casa Fernando Pessoa, a PUC, a Casa do Saber e a SESC.
O Gávea esteve durante dois dias no primeiro lugar do TopLinks brasileiro. Ah, vaidade, vaidade, tudo é vaidade...
Não quero achar o que os outros perderam:
as moedas no chão, os guarda-chuvas
esquecidos nos ônibus, e a vida
deixada por engano sobre o asfalto.
Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria
em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não irrompesse
com suas sombras e cigarras e cascatas.
Quero, sonho e adiro o inédito
como a noite no caracol de uma escada
contudo perto das constelações se eu pudesse vê-las de outro planeta.
[...]
Lêdo Ivo
Já agora, não resisto eu próprio a citar o FalaLíngua e as suas curiosidades:
«Aos dezessete anos, Carlos Drummond de Andrade foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), depois de um desentendimento com o professor de português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos. "Se não fizer isso, saio matando gente pela rua". Estraçalhou uma camisa nova em folha do neto. "Experimentei, ficou apertada, achei que tinha comprado o número errado. Mas não se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha."»
«Érico Veríssimo era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.»
«Jorge Amado para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. "Por quê?", perguntavam os jornalistas, Jorge respondeu: "O motivo é simples: nós somos amantes." Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal disse: "Muito prazer, encantado." Era piada. Os dois nem se conheciam até então.»
«Clarice Lispector era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.»
Citado pelo Rui Tavares de uma das secções mais visitadas do FalaLíngua; vale a pena:
«Numa das viagens a Portugal, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o "furo": Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.»
«Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: "O senhor gosta de Camões?" Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos.»

«Há esta coisa que me faz muita espécie: temos uma língua que, por via de acidentes históricos, é falada por um número incrivelmente maior de pessoas do que aquelas a que a nossa dimensão enquanto país em princípio nos condenaria; e, ainda assim, damo-nos ao luxo de não querer saber do que se faz e escreve em português, de torcer o nariz face ao "sotaque" da escrita brasileira, etc. É como se persistíssemos em querer ser apenas dez milhões, em querer saber apenas do que fazem dez milhões, quando teríamos um acesso muito fácil ao que fazem outros duzentos milhões com a mesma língua. É claro que, inversamente, para mim é também penoso o desconhecimento que os brasileiros em geral têm do que possa ser Portugal hoje, para além do nível da anedota sobre o Joaquim da Padaria. É penoso, sim - não têm a menor ideia, são arrogantes e não querem saber; mas eles sempre têm os números a seu favor.
Nós, pelo nosso lado, temos uma espécie de desdém primeiro-mundista (olha quem) mal assumido, que nos permite olhar para o Brasil e para os brasileiros achando que eles "falam mal", que são atrasados e preguiçosos.»
David Arrobas, no Relatos de Lagutrop:
«Saudade do presidente Figueiredo. Nem só de futebol, praia e bunda é feito o Brasil. Qualquer pessoa atenta sabe isso. Até considera a afirmação uma banalidade. Mas Portugal é pródigo em pessoas desatentas. Em turistas encantados com a natureza, as putas e os preços baixos do Brasil. E broncos em relação ao resto. Broncos e muitas vezes decorados com uma disparatada arrogância cultural. Delambida. Puro complexo de colonizador.»
A propósito do extracto-homenagem de ontem, Eugênia Fortes chama a atenção para o conto «Hoje de Madrugada», de Raduan Nassar, fotografado do original, nos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles. Pode ser lido aqui.
Paulo Bicarato sobre Guimarães Rosa na Novae, evocando Maio de 1952: Guimarães Rosa começava a viagem que resultou em Grande Sertão: Veredas. Nonada, o neologismo hermético que inicia a fala de Riobaldo Tatarana ao baldear o “Gaiola” rumo ao norte, rumo ao “desejo de Deus”, Diadorim, entraria de vez para o léxico português.


«Ilha de Itaparica, alvas areias,/ Alegres praias, frescas, deleitosas;/ Ricos polvos, lagostas deliciosas,/ Farta de putas, rica de baleias.// As putas tais, ou quais não são más preias,/ Pícaras,ledas, brandas, carinhosas,/ Para o jantar as carnes saborosas,/ O pescado excelente para as ceias.[…]»

Agradecimentos ao Pedro Dória, do No Mínimo. E uma pequena resposta às tuas interrogações. Caro Pedro: esse tema (o da «importância da literatura portuguesa», em comparação com a literatura brasileira) daria um blog inteiro. As razões por que uma turma de portugueses cria um endereço na web para falar de literatura brasileira podem ir sendo conhecidas aos poucos e são já uma resposta a essa inquietação. A ignorância, de um e de outro lado do Atlântico, sobre o que se faz na outra margem, é um dos absurdos da nossa vida. Temos de viver com ele.
O Gávea começa a mexer. Obrigado aos visitantes e aos que se referiram ao blog. A ideia não é a de competir por um lugar no top, mas apenas a de deixar disponível alguma informação sobre o que nos interessa da literatura brasileira – e de outras matérias que virão com o tempo. Agradecemos aos leitores do Gávea, por isso, a indicação de links que possam ser disponibilizados para quem quer conhecer mais dos livros brasileiros de hoje – e da literatura brasileira de qualquer idade. O Gávea não tem estatuto editorial nem carta de princípios – nem lamechices – e está disponível para receber essa colaboração.

«Em 1741, o herege português Pedro De Rates Henequim baseou-se nas Escrituras para afirmar que o Brasil era o autêntico paraíso terrestre, o Éden, o jardim das delícias. O nome Adão, em hebraico, significa “vermelho”. Entendeu? De acordo com Pedro de Rates Henequim, Adão pertencia à raça vermelha, sendo um antepassado dos nossos indígenas. O Livro dos Cânticos “é todo profecia do Brasil”, como atesta a referência à bebida de milho pisada fabricada por nossos selvagens. […] Pedro de Rates Henequim incorreu também em inúmeros desvarios geográficos, afirmando que o Brasil só sobreviveu ao Dilúvio Universal porque “é uma ilha que se gira em rodas sobre o mar”. Felizmente, foi capturado pelo tribunal da Inquisição, que teve o bom senso de condená-lo à pena de estrangulamento pelo garrote, como a ordem suplementar de queimar todos os seus restos, “de sorte que nem delle nem de sua sepultura possa haver memoria alguma”.» [Diogo Mainardi, Contra o Brasil. Companhia das Letras, 1998.]
Diogo Mainardi nasceu em 1962. Viveu durante alguns anos na Europa (Inglaterra e Itália), é colunista semanal da Veja e participa no programa Manhattan Connection, do canal de cabo GNT. Publicou vários livros: Malthus, Arquipélago, Polígono das Secas e Contra o Brasil, todos na Companhia das Letras.
Foram adicionadas mais duas livrarias para serem frequentadas online: a Cultura e a Livraria da Vila. Referências de São Paulo.
Da Folha de São Paulo (link não disponível):
«Inaugurada na quarta-feira, na estação Paraíso, a biblioteca "Embarque na Leitura" é a primeira no país a ser instalada em uma estação metroviária.
O acervo inicial possui 4.000 volumes de gêneros diversos: literatura nacional e estrangeira, livros infanto-juvenis, além de áreas temáticas como sociologia, artes e filosofia. Há também uma Bíblia em braile. O projeto é realizado pelo Instituto Brasil Leitor em parceria com a Secretaria dos Transportes Metropolitanos e com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura. Duas empresas privadas cobrem o custo total do empreendimento.
Para se cadastrar, os usuários precisam apresentar documento de identidade, comprovante de residência e uma foto 3x4. Menores de 12 anos devem ir acompanhados dos pais. Cada pessoa pode pegar um livro por vez e tem direito a ficar com ele por dez dias.
Além da biblioteca, está prevista a realização de conversas com escritores e contadores de histórias e tardes de autógrafos. A proposta é criar mais nove bibliotecas no metrô de São Paulo, mas não há previsão de quando isso será feito.»

«Li um romance do Pirandello, a quem só conhecia como autor de teatro. Tenho lido bastante, existe um autor novo que gosto muito, o João Paulo Cuenca. E um português chamado Mário de Carvalho, muito bom. A minha leitura é muito indisciplinada. Vou lendo o que cai na minha mão, passo às vezes algum tempo sem escrever nada. Quando estou escrevendo, não leio. Mas, mais uma vez, essa leitura recente dificilmente vai mexer com a minha formação literária.»

Ainda do Prosa Caótica, uma carta de Tom Jobim a Vinicius de Moraes, de 1965:
«Morro de saudades. Acordo de madrugada e fico vagando pela casa, tomando café e fumando com aquele sentimento esquisito de lack of rabanadas. Recebi tua carta hoje de manhã, agora mesmo, às nove horas, e faz um dia lindo. Aquele frio lá fora, o céu azul transparente mostra que a poluição diminuiu bastante... Para mim seis degraus centígrados é frio à beça. Corro para dentro e ligo o heat na toda, no clima supertropical de Ipanamo. Mas o ar fica seco, racha-violão. Só mesmo no banheiro, com o chuveiro quente ligado, nu, de camisa de meia, na umidade das nuvens de vapor quente, fazendo uma infinita barba, com aparelho, pincel e muita espuma e respuma, gilete nova, desligado, num mundo sem problemas, só fico assim mais como Ipanerma, Ipanoma, Ipaderma, Ipanonha, Aipinina, Ipatonha... Ipanhonha?»
O blog Prosa Caótica mantém há bastante tempo uma relação cordial com a literatura e os seus autores-obsessão. Assinado por Maira Parula, é uma das referências a ler com frequência. Há dias, publicou uma pequena homenagem a Jorge Luis Borges, «A Biblioteca de Bebel»:
«Se eu digo que nos galhos de um cedro do Líbano costumavam se aninhar todas as aves dos céus. Que à sua sombra se acolhiam todos os animais dos campos e descansava toda a espécie de gente. Se eu digo que meus ouvidos mortais não foram preparados para o som de cânticos, das harpas, das liras e dos címbalos. Que, antes disso, as ruas abertas de minha infância transformaram em mármore as tardes que hoje busco na memória. Se eu digo que minha raça, classe e sexo são definitivamente a garatuja de tudo aquilo que sou. Que tudo aquilo que sou poderia muito bem acomodar-se no espaço entre uma vírgula e um ponto num rodapé desnecessário. Que não tenho a pretensão das páginas elegantes para pendurar minhas reflexões rudimentares de minha vidinha rudimentar, muito menos quinhentos séculos de dúvidas. Se eu ainda assim digo que não acredito num livro total porque sempre desconfiei dos místicos e do seu Deus circular de lombada contínua, é porque, depois de tudo o que acabei de dizer ou que me disseram, o meu universo não é uma biblioteca, ou porque qualquer coisa que eu venha a dizer ou escrever não passam de letras soltas de uma história inteira de que quase nem lembro.»
O prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira 2004 será anunciado no dia 9 de novembro, em São Paulo e arrisca-se a ser considerado um dos prémios de referência para a edição brasileira. Entre os finalistas estão Mongólia, de Bernardo Carvalho, Céu de Lona, de Décio Pignatari, Budapeste, de Chico Buarque, Memórias Inventadas: A Infância, de Manoel de Barros, Macau, de Paulo Henrique Brito, O Vôo da Madrugada, de Sérgio Sant'Anna, A margem Imóvel do Rio, de Luis Antônio de Assis Brasil ou Geografia Íntima do Deserto, de Micheliny Verunschk. Estão publicados em Portugal os livros de Bernardo Carvalho (Cotovia), Chico Buarque (Dom Quixote) e Sérgio Sant'anna (Cotovia).
De resto, Sérgio Rodrigues já tinha escrito sobre o «acordo ortográfico» antes; é um assunto a acompanhar. No Brasil, a imprensa raramente fala dele; em Portugal, há um certo ar escandalizado por boa parte dos colunistas, que temem perder a língua. Ora, só se perde o que não se usa, salvo erro.
Sérgio Rodrigues escreve sobre o assunto, e merece atenção:
«A idéia de “preconceito lingüístico”, popularizada pelo lingüista Marcos Bagno, da UnB, é de longe a mais pop criada pela moderna lingüística brasileira. Prestando atenção, vamos flagrar a patrulha espontânea do “preconceito lingüístico” em plena ação aqui e ali, em grupos de discussão na internet ou no bar, reagindo a qualquer reparo crítico que tenha a língua por alvo. Para ficar num exemplo só: outro dia, numa comunidade online dessas que estão na moda, um cidadão de Portugal se assustou com a expressão “linha do tempo” que um brasileiro usara. Propôs sua substituição por “cronologia” e a chamou de “brasileirismo horroroso”. Reação – compreensível – do nosso conterrâneo: “Olha o preconceito lingüístico aí!”.»
Obrigado Rui F. Santos, que escreveu por email: «Como sabe bem Nelson, Clarice e Luis Fernando em poucas linhas, assim bem arrumadinhos, jeitosos e arejados. Na estupidez e horror vulgar dos dias, temos que nos agarrar a estas pequenas miragens de salvação. [...] Ver Nelson a acender o cigarro e Clarice a espreitar assim a modos de que lhe está a fugir o infinito é a garantia de uma noite de domingo mais prazenteira.»
Amaury Veras, 53 anos, estilista (moda) foi encontrado morto na sua casa do Arpoador, pendurado por uma écharpe na porta do seu quarto. O caso tem agitado, sobretudo aquele tipo de gente que gosta de dizer «griffe» e de mencionar o termo «ícones» (uma das melhores frases foi a da actriz Ingrid Guimarães: «O fato não condiz com a pessoa. Ele era zen, não acredito que possa ter se matado.» O blog Farsantes toca num ponto essencial, para lá da vida e da morte: «Rubem Fonseca deve estar se roendo.» Um crime assim não é de todos os dias, um estilista pendurado por uma écharpe.
Luis Fernando Verissimo escreve esta semana sobre o projecto do governo PT/Lula em redor da disciplina sobre a imprensa (lê-se no Estadão e no O Globo) -- ver o post anterior «Imprensa»:
«Não acho totalmente ruins esses projetos para disciplinar jornalistas. Gostei principalmente da idéia de definir critérios para os trajes a serem usados no exercício da profissão. Poucas coisas afetam o funcionamento de uma redação como o comprimento das saias usadas por certas jornalistas, por exemplo. Esta é uma área em que algum tipo de padronização é obviamente necessária. Caberia ao Conselho, ou à Ordem, ou ao que quer que seja que vá nos disciplinar, estabelecer limites máximos e mínimos para as saias desde que ficasse claro não haver qualquer intenção de controlar o conteúdo. Não imagino como seria um traje adequado para cronistas. Talvez algo na linha do blazer azul, camisa aberta ao peito em tom pastel, calças cinzas e sapatos tipo mocassim. Algo, enfim, para distingui-los das categorias inferiores. Para as moças, blazers também, mas com um cachecol cuja cor variaria de acordo com o assunto de que tratam (rosa shocking para a política, verde debênture para a economia, etc.). A regulamentação dos trajes para cronistas enfrentaria alguns problemas práticos na aplicação, como o que fazer com as meias coloridas do Zuenir. Proibi-las simplesmente seria um inaceitável cerceamento da liberdade de expressão dos pés do cronista. Tornar o uso de meias coloridas iguais às do Zuenir obrigatório para todos os cronistas só aumentaria os protestos contra a escalada do autoritarismo tipo soviético neste governo. Hoje só meias como as do Zuenir para todos, amanhã só o Pravda. A solução seria um dispositivo especial da nova lei que isentasse as meias do Zuenir do artigo que trata das nossas vestes. O que se esperaria dos responsáveis pelos projetos para disciplinar jornalistas é que tivessem a sensibilidade e o bom senso de rever este item. Pelo menos este.»
Teríamos errado ao escrever «site de portugueses» em vez de «sítio de portugueses»? Ó Flor do Lácio, problema tão sem solução...



Karim Blair, aliás Mécia Rodrigues, escreve fragmentos de um romance inacabado no seu blog, O Caderno Lilás:
«Estados Unidos do Brazil, 100 réis, Correios, 1905. Os atracadouros, os veleiros fundeados, os trapiches, o céu amarelo de Benedito Calixto. O beijo. O beijo no barulho do bar. O beijo que foi um roçar de cílios e superfícies, a pele do meu rosto sobre a pele do rosto dele, assim : as capitanias hereditárias, os esconderijos arqueológicos, o destino dos nossos olhos, a estação das barcas.»
Rubem Fonseca conta a sua breve história de prefaciador: «A história da pornografia tem sido muito estudada e existem atualmente muitos livros e tratados que abordam o assunto de maneira ampla e inteligente. O texto, aqui requentado, da minha apresentação daquele moderno manual de práticas sexuais – a autora tinha a pretensão de orientar e conquistar principalmente o público feminino – não possuía o estilo adequado a uma publicação dirigida a leitores concupiscentes. Creio que aqueles que se aventuraram a lê-lo (sabemos que prefácios não costumam ser lidos) provavelmente desistiram de comprar o livro. E a minha carreira de prefaciador terminou ali.» Vem no Portal Literal.
Em discussão o projecto da criação do Conselho Federal de Jornalismo; não deixa de ser um propósito censório e petista. Se se esperavam algumas críticas, agora é Cristovam Buarque que também contesta a ideia: a censura não vem toda ao mesmo tempo. Veja-se também este texto de Guilherme Fiúza, no No Mínimo; e este de Hélio Schwartsman, no Folha de São Paulo.
No No Mínimo, Sérgio Rodrigues discute as novas formas verbais: ficcionar, ficcionalizar, xerocar, teclar, clicar, etc. «Quando foi exatamente que ficou "consensuada" entre nós – como deram de dizer certos professores universitários e até o Lula – toda essa criatividade verbal?» Mas avisa: «Atenção, não sou reaça.»
O novo livro de Garcia-Roza não
terá o delegado Espinosa como protagonista. Não tem título, ainda, mas é uma
traição aos admiradores do mais famoso polícia carioca de Copacabana. Os livros
de Garcia-Roza são publicados em Portugal pela Gótica, no Brasil pela Companhia
das Letras.
Justamente Ruy Castro, o autor das biografias de Nelson
Rodrigues e de Garrincha (Estrela Solitária): a próxima biografia é
dedicada a Carmen Miranda e sairá na Companhia das Letras durante o próximo ano.
Ainda não tem título definitivo – mas Ruy Castro esteve em Marco de
Canaveses, a terra-natal de Cármen Miranda. O mais
recente livro de Ruy Castro é Amestrando Orgasmos (edição da Objetiva)
mas o mais citado é ainda Carnaval no Fogo. Crônica de uma Cidade
Excitante Demais, uma
história do Rio de Janeiro – e de Copacabana, mais exactamente (Companhia das
Letras), que foi um dos finalistas do Jabuti. Um extracto de Carnaval no
Fogo: «Se Vespúcio voltasse hoje à cidade, quinhentos anos depois,
como seria? Em 1502, ao defrontar-se com o Pão de Açúcar, ele vira na Guanabara
algo muito parecido com a ideia que os antigos faziam do Paraíso: um carnaval de
montanhas, serras, praias, enseadas, ilhas, dunas, restingas, manguezais, lagoas
e florestas, tudo sob um céu que não tinha fim. Uma obra-prima da natureza,
habitada por uma gente feliz, bronzeada e amoral. […] Uma vida tão feliz e
paradisíaca que deixava muito mal a ideia, então corrente entre os jesuítas, de
que os selvagens não tinham alma.» Ruy Castro viveu alguns anos em Portugal e já
dedicou ao Rio alguns dos seus livros, como Ela é Carioca, Uma
Enciclopédia de Ipanema. Eu acho que o romance sobre Bilac, Bilac vê Estrelas, também é sobre o Rio,
claro.
Depois do trabalho memorável de Ruy Castro sobre a obra do dramaturgo (desde a monumental biografia, Flor de Obsessão, até à edição da série de livros perdidos ou esquecidos), a Companhia das Letras acaba de lançar O Baú de Nelson Rodrigues, reunião de crónicas publicadas entre 1928 e 1935, período em que Nelson trabalhou nos jornais A Manhã, Crítica e O Globo. O trabalho de edição é de Caco Coelho. O Baú de Nelson Rodrigues recolhe dois tipos de texto: crónicas literárias de um lado, histórias de polícia do outro. 308 páginas para coleccionadores.